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Fernando Madrinha

Medidas simbólicas

Fernando Madrinha (www.expresso.pt)

O primeiro-ministro discorda da redução dos salários de políticos. Na última entrevista à RTP, disse que aceitou inscrevê-la no plano de austeridade só porque o líder do PSD insistiu nela. Pelo seu lado, dá mais importância "aos resultados" do que a medidas simbólicas. E, como os tímidos cinco por cento de poupança nos salários pouco representam no ataque à dívida nacional, Sócrates não lhes dá importância. Além de que os políticos não ganham muito - o que é verdade - e alimentar a ideia contrária, afirma, é atacar a democracia.

Ao dizer abertamente o que pensa sobre esta matéria, o primeiro-ministro foi honesto consigo próprio e com a audiência. Ser-lhe-ia fácil e decerto mais vantajoso colar-se à proposta de Passos Coelho, mesmo discordando dela, do que distanciar-se. Mas custa a crer que um chefe de Governo, ou qualquer outro responsável político, não perceba a importância das medidas simbólicas. Ao afirmá-lo publicamente, Sócrates dá força a todos os maus exemplos que abundam nos gabinetes ministeriais e noutros órgãos de soberania, na Administração Pública e em todo o aparelho do Estado. Os beneficiários de privilégios e mordomias que já eram excessivas antes da crise verão na honesta mas descabida reflexão do primeiro-ministro um incentivo para manterem tudo como lhes convém, abstendo-se de darem, eles próprios, um exemplo ajustado aos novos tempos.

Não é apenas Sócrates que negligencia este valor do exemplo. O Presidente da República também não disse até hoje uma palavra sobre o que tenciona fazer com o seu próprio salário e com os gastos do palácio. O Parlamento aprovou um orçamento despesista como se nada se estivesse a passar. Além de corrigirem esse orçamento como se impõe - o CDS, em geral coerente nas propostas e certeiro nas críticas, já apresentou várias sugestões -, vão os senhores deputados reduzir também os seus vencimentos e mordomias? Farão o mesmo os deputados às Assembleias Legislativas Regionais, os membros dos governos regionais e os autarcas de todo o país? E os juízes que, não sendo políticos, pertencem a um órgão de soberania? Ou os militares das mais altas patentes?

Não se sabe. Sabe-se, sim, o que se passa na Irlanda, em Espanha e até na rica Dinamarca, que está formalmente fora do euro e tem um défice de 5,5 por cento, mas também vai reduzir na despesa e começa pelos vencimentos dos políticos. Ou em Itália, onde, além dos salários, também houve cortes nas subvenções aos partidos, iniciativa que não ficaria nada mal num país como o nosso. A par, por exemplo, da diminuição do número de deputados, que foi defendida esta semana por um ex-presidente da Assembleia da República, Mota Amaral. Isto, claro está, era se o poder político, tão lesto a cortar nas despesas com os desempregados, atribuísse importância a medidas simbólicas. E se visse nelas não uma forma de atacar a democracia, mas de a defender.

Vão-se os dedos?

Já sem anéis de que possa desfazer-se sem dor, como bancos, seguradoras, jornais ou empresas de camionagem, Portugal corre o risco de ficar sem os dedos. É o que a ameaça da Telefónica à PT prenuncia, sem que o tenham previsto aquela meia dúzia de ex-ministros da economia e das finanças que todos os dias peroram nas televisões como se nunca o tivessem sido.

Depois do "ataque dos especuladores" à dívida soberana, expressão trocista que diz tudo sobre a soberania que nos resta, as melhores empresas nacionais podem tornar-se alvo do apetite voraz do capital internacional ou, como sucede nesse caso, de concorrentes mais poderosas. Com o país vulnerável e carecido de dinheiro vivo para pagar o que deve, aparecerão os caçadores de bons negócios à procura de preços de saldo. Que o primeiro sinal dessa ameaça venha de Espanha, sendo natural devido à proximidade e até, neste caso, às relações íntimas entre os dois grupos em questão, também não deixa de ser irónico, à luz da História. Quanto maiores as dificuldades, em ambos os países, mais depressa acabará por se impor a lei do mais forte. E maiores os riscos de irem passando para o lado de lá da antiga fronteira os famosos centros de decisão. Em tempos, houve um debate sobre este assunto, que despertou certa paixão. Hoje, já poucos lhe dão importância, o que também facilitará as coisas.

Um contrato bizarro

Manuel Alegre vai receber o apoio formal de um partido que não quer que ele ganhe. E ao receber esse apoio ficará menos livre para criticar o Governo e fazer uma campanha para capitalizar o único voto que lhe pode dar esperança de chegar à segunda volta: o voto dos descontentes à esquerda.

É o contrato político mais bizarro que alguma vez se viu em presidenciais e já se viu muita coisa - desde o PCP a engolir um sapo até ao PSD que, tendo maioria absoluta no Parlamento, não apresentou sequer candidato e deu liberdade de voto aos militantes. Esta seria, aliás, a mais lógica opção do PS perante as patentes divisões internas. Mas juntaram-se duas fraquezas: a de Alegre que precisa do apoio do PS para deixar de ser apenas candidato do BE e a do PS que se vê forçado a apoiá-lo porque sempre é uma voz contra Cavaco e porque, assim, tenta evitar que o Governo se torne, na sua própria área, o bombo da festa das presidenciais.

Texto publicado na edição do Expresso de 29 de Maio de 2010