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Expresso

Fernando Madrinha

Juízes contra militares

A esquerda à esquerda do PS - e muito possivelmente alguns sectores socialistas que não se têm pronunciado - rejubilam com as sucessivas ordens de libertação, emitidas por tribunais comuns, dos militares que participaram nos famosos 'passeios' de contestação ao Governo e foram castigados pelas respectivas hierarquias. Essa esquerda rejubila, pois, com a indisciplina. E alegra-se com a desautorização pública da hierarquia das Forças Armadas, da mesma forma e com o mesmo espírito de ataque aos pilares do Estado burguês com que, em 1975, promoveu as organizações reivindicativas de militares conhecidas por SUV (Soldados Unidos Vencerão).

Em vez da revolução, invoca agora, a despropósito, o Estado de direito. Mas a atitude e as motivações são idênticas, até porque essa esquerda é a mesma de 1975 . A sua evolução doutrinária resume-se aos temas ditos fracturantes - liberalização do aborto, salas de chuto, direitos dos homossexuais e por aí adiante. Tudo o que lhe cheire a disciplina e autoridade é igual a fascismo. Mesmo nas Forças Armadas que, por natureza e definição, só existem enquanto obedecerem as normas rígidas de disciplina e autoridade, obviamente distintas das que vigoram nas instituições civis.

A esquerda não sabe isto? Sabe e muitíssimo bem. Mas, não podendo ter as Forças Armadas e as policiais sob o seu controlo e ao seu serviço - aí os 'passeios' não chegariam sequer a realizar-se -, prefere que elas se desprestigiem em manifestações disfarçadas de idas as compras e se desestruturem com a desautorização das suas cadeias de comando.

Que esta seja a atitude da esquerda mais radical já é lamentável, embora não surpreenda. Agora que os meritíssimos senhores juízes da respectiva associação sindical também se metam no assunto e façam coro com ela - embora dizendo apenas que os tribunais são quem melhor assegura os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos - isso já é de estarrecer ou emigrar, como diria Almeida Santos. Depois de tudo o que se tem passado na Justiça, o último espectáculo de que o país precisa é de ver juízes contra militares, ainda que os primeiros se limitem a aplicar a lei que os políticos fazem.

Quem é militar sabe perfeitamente que o seu compromisso com o país implica a perda de alguns direitos, liberdades e garantias - até porque os quadros das Forças Armadas são hoje preenchidos por voluntários. Não é, pois, aceitável que, lá por terem sido extintos os tribunais militares, um juiz "de fora" possa agora pôr em causa decisões que pertencem e devem continuar a pertencer ao foro da disciplina interna das Forças Armadas. A menos que se queira transformá-las numa instituição permeável a todo tipo de manipulações do exterior.

Património em risco

No sábado de manhã, meia hora depois de o Museu do Chiado ter aberto as portas, já uma boa dúzia de interessados, portugueses e estrangeiros, apreciava o grande tributo que o museu presta a Columbano Bordalo Pinheiro no 150º aniversário do seu nascimento. Surpreendi-me até com o número de visitantes, tendo em conta que a exposição abriu há um mês e que eram as primeiras horas de uma manhã de sábado e de sol. Por volta do meio-dia, no Museu Nacional de Arte Antiga, três a quatro dezenas de pessoas, ou talvez mais, circulavam na área de exposições temporárias para verem a belíssimo conjunto de arte polaca medieval intitulado 'O brilho das Imagens'. Nada de multidões e as filas à porta, como nos últimos dias da exposição de Amadeu de Souza-Cardoso na Gulbenkian. Mas, num caso como no outro, um número de visitantes bastante razoável e estimulante, a meu ver, para os responsáveis das duas instituições.

Nem de propósito, no domingo à noite rebentou o escândalo e os museus chegaram aos telejornais pelas piores razões: alguns, incluindo o de Arte Antiga, vivem uma crise de pessoal sufocante. E o do Azulejo até já cobra só metade do valor do ingresso porque, devido à mesma falta de vigilantes, fechou várias salas. Pensei: afinal, deve haver menos visitantes, e, portanto, menos receitas do que imaginava.

Pois bem, a crise não tem nada a ver com o desinteresse do público. E o que era só uma impressão pessoal tornou-se uma certeza com a consulta dos números facultados pelos dois museus em causa. O do Chiado recebeu 33 mil pessoas em 2004, 30 mil em 2005 e 48 mil em 2006. No das Janelas Verdes, os números são ainda mais impressivos no que diz respeito à tendência de crescimento: 75 mil em 2004, 104 mil em 2005 e... 192 mil em 2006. Os dois últimos anos coincidem, por sinal, com o mandato da directora Dalila Rodrigues - e isto prova que as pessoas contam, ao contrário do que por vezes se pretende fazer crer. Mas, independentemente do mérito de cada director "levar" visitantes ao seu museu, a comprovada procura crescente torna ainda mais vergonhosa a chamada crise de pessoal. E o combate ao défice não serve para explicar o facto de se ter chegado onde se chegou porque não se pode admitir que alguém com dois dedos de testa e um de responsabilidade aceite colocar o património dos museus em risco por falta de vigilantes. Para evitar alarmismos, todos os responsáveis nos dirão que isso não está a acontecer. E, no entanto, qualquer visitante atento pode verificar que, em alguns casos, é isso mesmo que acontece.

Fernando Madrinha