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Fernando Madrinha

Contrapropaganda

Fernando Madrinha (www.expresso.pt)

A foto em S. Bento permitiu a Passos Coelho resolver um problema sério que trazia da campanha para a liderança do PSD: como apoiar o PEC, que estava condenado a apoiar, sem parecer que mudava radicalmente de opinião. A Standard & Poor's deu-lhe o motivo de força maior para fazer a patriótica reviravolta. Uma reviravolta que também aproveita a Sócrates, porque mitiga a sua enorme solidão perante a dura tarefa com que o país está confrontado e que não sabemos ainda se o Governo será capaz de levar a cabo. Quem oiça o ministro das Finanças e o das Obras Públicas acerca das opções a tomar sobre os grandes projectos percebe que já temos ali, não um, mas dois governos. E o fidelíssimo Teixeira dos Santos, que já engoliu alguns sapos, pode acabar por se cansar destes jogos de força. O que seria trágico para Sócrates e desastroso para o país.

A foto de S. Bento foi uma boa ideia de contrapropaganda na guerra com as agências. Mas teria sido uma ideia melhor se, a par da foto, os dois líderes tivessem subscrito medidas de contenção e poupança que não se limitassem a atacar os mais fracos, como são os beneficiários do subsídio de desemprego e das prestações sociais. Para se combater a fraude nestas áreas não é com certeza necessário ofender a dignidade dos que a não praticam, com a mensagem subliminar de que o oportunismo campeia. Que os dois partidos tenham começado a cumprir o PEC por aqui é, desde logo, um sintoma de preguiça, porque é sempre mais fácil mudar as regras do que fiscalizar o seu cumprimento. Mas é também um sinal de falta de sensibilidade e de coragem política para impor a austeridade com justiça, pagando os mais fortes pelos mais fracos e não o inverso.

Histórias da carochinha

Antes de a Standard & Poor's ter tomado conta dos noticiários, a Comissão Parlamentar de Inquérito ao caso PT/TVI era uma agência de rating político apostada em classificar Sócrates abaixo de BBB-. Com os factos que haviam de ser apurados e comprovariam o envolvimento do primeiro-ministro num negócio a que, depois de muito apertado, ele próprio veio a pôr fim. Agora que o país se afunda em juros cada vez mais altos e chega às primeiras páginas da imprensa mundial pelas piores razões, a comissão aparece-nos como um distinto clube de zombies condenados a repetirem as mesmas perguntas e a levarem com as mesmas respostas devidamente ensaiadas - ou com resposta nenhuma, quando algum dos inquiridos, para não se comprometer, decide calar-se, ou invocar o sigilo profissional.

Da Comissão de Ética para a Comissão de Inquérito pouco ou nada se progrediu quanto ao suposto papel do primeiro-ministro no negócio. As sessões têm sido animadas por muita guerrilha política e algumas "histórias da carochinha", para usarmos a patusca expressão de Manuela Ferreira Leite que, em vez dos tais factos, também se limitou a dar opiniões e a fazer deduções. Ainda assim, deduções que, sendo feitas por quem conhece bem os processos de decisão e as relações entre governos e empresas em que o Estado participa, causaram danos colaterais. De facto, a ideia de que é possível a um único administrador de uma empresa como a PT, logo o mais jovem e com currículo mais curto, conceber e desenvolver sozinho - até ao ponto de ir a Madrid com o pré-acordo no bolso - um negócio estratégico no valor de 115 milhões de euros, é tão extravagante que não lembraria ao diabo. Mas lembrou a quem definiu a estratégia de defesa do "não sei, nem tinha que saber", "não informei, nem tinha que informar", talvez sem se dar conta de que, ao proteger Sócrates, essa estratégia - se alguém a levar a sério - desfaz a imagem pública dos órgãos de gestão da PT. Compreende-se, assim, que Rui Pedro Soares tenha tentado fechar-se em copas: ele já percebeu que no fim da linha vai estar sozinho.

Quanto ao primeiro-ministro, sobra a questão de não ter dito a verdade quando afirmou desconhecer o negócio, algo que ele próprio reconheceu ao acrescentar, tempos depois, que não tinha conhecimento... formal. É grande a curiosidade sobre o que fará a comissão com essa grande descoberta. Mas o drama maior com que está confrontada é o da sua própria credibilidade porque, no fundo, já ninguém acredita em ninguém - nem nos defensores de Sócrates, nem nos acusadores de Sócrates - nem na pretensa objectividade dos deputados perguntadores.

Os donos dos cravos

No princípio, os cravos não tinham dono. Eram distribuídos, partilhados, oferecidos, comprados, trocados, roubados, e todos os exibiam sem complexos nem desconfianças. Cada um era livre de pôr um cravo vermelho sem ficar rotulado. E a todos ficava bem, embora pudesse "dar jeito a certos filhos da mãe", como cantaria mais tarde José Barata Moura. No PREC, a esquerda apropriou-se do cravo. E o centro-direita começou a rejeitá-lo - ao ponto de Cavaco Silva, o primeiro Presidente eleito à direita, se inibir de o pôr no 25 de Abril. Curioso é que a mesma esquerda que censura Cavaco por não o usar escarneça agora da nova direcção do PSD por ter tido a ousadia de o ostentar de novo. Os cravos não têm dono e a liberdade que simbolizam também não. Só por isso valeu o gesto e o discurso provocador de Aguiar Branco que, apesar de não ter estado preso em Caxias, certamente festejou o primeiro Dia da Liberdade com a mesma alegria de Francisco Louçã.

Texto publicado na edição do Expresso de 1 de Maio de 2010