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Expresso

Fernando Madrinha

Antecipar a desgraça

Há um ano que o país está alertado para a crise global que aí temos. Há três meses que, pelo exemplo dos EUA, se apercebeu dos seus efeitos perversos - os milhares de milhões que ela cobra à cabeça com as falências de bancos. E há um mês que os portugueses se deram conta de que lhes vai sair muito cara a especulação delirante de que apenas alguns beneficiaram nas últimas décadas, mas que todos têm de pagar agora com língua de palmo, para evitar males piores. Na verdade, porém, a crise ainda mal se fez sentir lá onde, segundo todas as previsões, vai doer mais: nas falências de empresas e no desemprego em massa, com o cortejo de misérias que isto representa num Estado demasiado empobrecido e endividado para poder acudir eficazmente.

As previsões da OCDE para a zona euro, conhecidas esta semana, são as primeiras a anunciar a recessão e um crescimento do desemprego para valores muitíssimo preocupantes: 8,5 por cento contra os 7,6 por cento que o Governo prevê. Perante estes números, os partidos da oposição exultam. Há tanto tempo que anunciam a desgraça, esperando colher dela benefícios políticos e eleitorais, que as piores previsões se tornam o seu maior trunfo e o seu melhor estímulo na luta contra o Governo. Este, perante as mesmas previsões, tenta sobrevalorizar o lado menos mau, ora porque são meras previsões ora porque o vizinho do lado está pior do que nós. Isto apesar de todos sabermos, começando pelo Governo, que a situação do vizinho do lado - o espanhol, em primeiro lugar, mas também o alemão e o francês - é, precisamente, um dos factores que mais agravam a nossa própria situação.

Governo e oposições lêem as previsões como mais lhes convém e, no fundo, comportam-se como é de esperar. O país, esse talvez apreciasse um esforço de convergência de todas as partes na procura das melhores formas de reagir a uma crise especialmente sinistra. Tão sinistra que, para lhe resistir, os governos se sentem forçados a apoiar, em primeiro lugar, aqueles que menos deviam precisar do seu apoio: banqueiros e empresários, incluindo os que, pelas suas práticas aparentemente pouco recomendáveis, como no BPN, ou pela natureza específica da sua actividade, como no BPP, não deviam ter qualquer apoio.

As centenas ou os milhares de milhões de euros já despejados ou a despejar nos bancos e nas empresas são riqueza produzida - ou dívida a contrair - que vai levar muito tempo a ser reposta. E nada garante que seja suficiente para impedir a desgraça que as oposições tentam antecipar e o Governo finge não perceber. Sabemos que, ao tentar salvar os bancos, o Executivo tenta salvar o crédito de que as empresas e as famílias precisam para investir e enfrentar a crise. Mas se esta finalmente chegar, como se espera que chegue daqui a três ou quatro meses, com a força e as consequências funestas que se antevêem, a pergunta que o país se fará é aquela que aparece num cartaz do Bloco de Esquerda: "O Governo protege os bancos. Quem protege as pessoas?" Trata-se de pura demagogia, sim. Mas o juízo que os eleitores fizeram sobre esta questão decidirá metade dos votos nas eleições que aí vêm.

Rumores perversos

Há uma fórmula muito portuguesa para os assassínios de carácter que consiste em dar força aos rumores ou às suspeitas sobre a conduta de alguém e deixar dito, a terminar, que a sua honestidade está acima de toda a suspeita. É um pouco o que acontece com o Presidente da República e o caso BPN: os que mais alimentam a chama da insinuação sobre as relações de Cavaco com os homens do BPN que foram seus colaboradores no partido e no Governo são, em geral, os que mais protestam a sua profunda convicção de que Cavaco é um homem sério.

Sabendo do que a casa gasta, o Presidente tirou o domingo para tentar matar a discussão à nascença, com um comunicado que a maioria dos políticos e comentadores consideraram excessivo e sem razão de ser. Aparentemente nada justificava que Cavaco descesse ao pormenor das contas bancárias que tem ou não tem para responder a rumores. E, no entanto, até o insuspeito José Lello, alto dirigente do PS, reconhecia no 'JN' que esses "rumores, de origem desconhecida", eram "perversos para o Presidente".

Um homem sério e que presuma a seriedade dos outros - como Cavaco agora fez com Dias Loureiro, comprometendo-se talvez mais do que devia nesta fase do processo BPN - não comete crime nenhum se tiver uma conta num banco que, lá por ser dirigido por pessoas que foram da sua confiança, pelo menos política, está de portas abertas ao público. Ou se tiver comprado acções desse banco, num período em que não desempenhava quaisquer funções políticas. Ou se, já como candidato a Belém, tiver aceite, como outros candidatos e partidos aceitaram, donativos do presidente do mesmo banco, a título pessoal e nos termos da lei. Pelo que se sabe, os desmandos aparentemente praticados no banco em causa por ex-colaboradores de Cavaco não comprometem Cavaco. E é por isso mesmo que os rumores são 'perversos': porque permitem a insinuação e fomentam a dúvida, de que o próprio não tem defesa possível, sobre se haverá mais alguma coisa do que aquilo que vão dizendo as fontes.

Ora, a origem dos tais rumores a que se referia Lello pode ser desconhecida - ou talvez não tanto, se tomarmos em conta que o BPN mudou de administração e está hoje nas mãos do Estado -. mas a sua intenção é claríssima: diminuir o Presidente, quer dizer, a única figura com legitimidade própria e força política bastante para ser contrapeso ao Governo e à maioria socialista. Não se sabe quem alimenta os 'rumores perversos', mas sabe-se perfeitamente a quem eles aproveitam. E não é ao país.

Fernando Madrinha