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Expresso

Fernando Madrinha

Abreviar o sufoco

Havia outros caminhos para lá chegar? Talvez. Mas essa prova nunca poderá ser feita. Reduzir substancialmente o défice das contas públicas sem dor, isto é, sem mais impostos, sem custos sociais e políticos, sem abrandamento económico e desemprego, por falta de investimento público, sem protestos, conflitos e incompreensões, era uma equação impossível. Ou, pelo menos, ninguém demonstrou que chegaríamos lá por essa via num curto período, como nos exigia Bruxelas, como era e continua ser do nosso interesse enquanto país que se quer governável e capaz de cumprir os compromissos assumidos.

Os factos são os factos. Antes de Sócrates e Teixeira dos Santos, Santana e Bagão Félix tentaram essa trajectória indolor e falharam; e antes de Santana, o caminho trilhado por Durão e Manuela Ferreira Leite, mais imposto menos imposto, não era muito diferente, nos seus efeitos perniciosos, daquele que o actual Governo assumiu.

Mesmo com os sacrifícios impostos, poucos acreditariam, há pouco, que o Governo conseguisse cumprir o défice a que se comprometera na Lei do Orçamento, os tais 4,6%. E muito menos que ficaria 0.7% abaixo dessa fasquia. Os 3,9% atingidos são, pois, uma inegável e muito suada vitória política de Sócrates. Para se ser justo, isto tem de ser dito sem 'mas' nem 'poréns', ainda que, por uma questão de pudor - muitos milhares de portugueses têm sofrido os tormentos dessa vitória -, o Governo deva ser contido na expressão pública da sua auto-satisfação.

A melhor forma de agradecer o esforço do país - e, apesar de todos os protestos, a compreensão que as sondagens registam - é fazer as reformas que têm que fazer para abreviar o sufoco. O compromisso de, em face deste resultado, chegar a 2008 com menos umas décimas de défice do que o previsto é uma boa forma de celebração. Talvez uma baixa do IRC e do IVA, como propõe Marques Mendes, reanimasse um pouco mais a economia, diminuindo o desemprego e aumentando os ganhos fiscais por via desse maior crescimento. Mas a troca de uma receita que já produziu resultados - contenção e reformas - por outra de resultado incerto tem riscos. E ninguém quer correr o risco de voltarmos ao ponto de partida.

Meio partido

Paulo Portas sonhou com um regresso em grande ao pequeno CDS/PP para fazer dele um partido enorme: aquele que haveria de mandar no centro-direita. Queria uma votação esmagadora para mostrar como era desejado. E tanto se convenceu do seu papel de D. Sebastião de todos os centristas, populares, democratas-cristãos, liberais, conservadores, trauliteiros e outros habitantes da casa do Caldas que se achou no direito de impor as regras da sua própria eleição. Algo que esmagasse completamente outros eventuais concorrentes. Directas, já!

Queria dispensar-se da maçada de um Congresso, com os delegados do CDS profundo, ou do que resta dele, a perorarem horas a fio e, quem sabe?, a fazerem perguntas e comentários inconvenientes ou menos respeitosos a um chefe tão extraordinário que nem o merecem. Até porque os congressos do CDS, como o candidato sabe melhor do que ninguém, costumam ser tumultuosos. Quem não se lembra daquele em que Portas, em directo para as televisões, avançou à frente de uma espécie de guarda pretoriana - política, claro, mas também suspeita de incluir "seguranças" - e foi desafiar à mesa Manuel Monteiro, cumprimentando-o para uma encenação cruel da sua derrota antecipada?

Tal como nessa altura, Paulo Portas comportou-se agora como um líder que antes de o ser já o era, pondo, dispondo e confiando que quase todos lhe diriam ámen. E que, receosos, os actuais dirigentes recuariam. Azar! Confundiu o partido com o grupo parlamentar que, nestes dois anos, andou a azucrinar Ribeiro e Castro. E eis que no CDS/PP, ou no que resta dele, há meio partido que, em vez de lhe agradecer, penhorado, a disponibilidade para voltar a ser o seu chefe, lhe diz que não pode fazer tudo à sua maneira. E pede um Congresso antes das directas, instalando uma tal confusão política e jurídica que ninguém sabe bem como sair dela. Muita gritaria e muitos insultos depois, com queixas por agressão de permeio e de racismo em resposta, avolumam-se os sinais de que um dos dois partidos que há no Caldas - o CDS e o PP - não se rende a Portas com a facilidade com que ele esperava. A ambição de um regresso em glória redunda num "flop" de dúvidas e resistências. E, no dia em que se sentar outra vez ao leme, vai ter consigo apenas metade de um partido já de si demasiado pequeno para cumprir a sua ambição de liderar o centro-direita.

Dezassete mil escutas?!

Valentim Loureiro disse a Judite de Sousa, na RTP, que os investigadores do 'Apito Dourado' ouviram 17 mil telefonemas seus e aproveitaram para o inquérito... 14. Dezassete mil telefonemas é uma vida exposta, supondo-se que Valentim fala verdade e que não telefona apenas a árbitros e gente do futebol. Um número tão disparatado - ainda mais pela relação com os telefonemas que se revelaram úteis para a investigação - só pode soar a abuso. E dá argumentos aos que pretendem descredibilizar e pôr em causa o recurso às escutas. Que esse abuso seja cometido pela polícia, que é quem mais necessita desse instrumento indispensável para combater o crime organizado, eis o que dá que pensar.

Fernando Madrinha