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Fernando Madrinha

A toque de caixa

Fernando Madrinha (www.expresso.pt)

José Sócrates andou em viagem, à procura de negócios para empresas nacionais. Há quem lhe critique a 'fuga' na semana em que o Parlamento aprovou as medidas do PEC. E houve até quem lhe atribuísse o ridículo de querer 'exportar o TGV' para Marrocos, só porque fez um apelo para que empresas portuguesas possam participar numa obra marroquina que não requer apenas carruagens de alta tecnologia que elas não possuem. Mas não se pode negar a Sócrates - e estas viagens desesperadas confirmam-no - o empenhamento numa diplomacia económica que vai à procura de negócios onde lhe pareça existir alguma possibilidade de êxito, mesmo com regimes pouco recomendáveis como os de Chávez ou de Khadafi. Esse voluntarismo, nos tempos de aflição que vivemos, é uma qualidade, não um defeito.

Infelizmente, o primeiro-ministro encontra-se naquela fase em que o que quer que diga ou faça já é motivo de controvérsia. E aí está um dos maiores dramas do país perante a crise. Se Portugal ainda tivesse um Governo - podia ser o primeiro de Sócrates - e não um conselho de gerência para dívidas e falências, se o Parlamento não fosse um antro de tribos inconciliáveis, se o Presidente da República ousasse dar um passo para promover um acordo parlamentar alargado, já que o primeiro-ministro é incapaz de um gesto nesse sentido, a crise ainda podia tornar-se uma oportunidade. Uma oportunidade para o país fazer, por sua iniciativa, as reformas ditas estruturais que já eram reclamadas há 20 anos, quando o FMI por cá andou, e outras que entretanto se tornaram necessárias. Assim, o nosso futuro próximo está traçado: andar a toque de caixa de Berlim e Bruxelas, ao ritmo que as agências de rating forem definindo.

Desnorte na 5 de Outubro

O Ministério da Educação não pára de surpreender. Agora, os alunos que atinjam a idade limite da escolaridade obrigatória (15 anos) até 31 de Agosto e que reprovem no 8º ano podem autopropor-se aos exames do 9º. Se passarem, o que é possível com um golpe de sorte - ou com exames da treta, como por vezes acontece -, estarão no décimo ano. Isto quer dizer que, a esse aluno chumbado, o Ministério oferece a oportunidade de fazer não um mas dois anos num só. E de passar à frente dos seus colegas que tenham tido aproveitamento.

Parece anedota. Mas a anedota não fica completa sem se acrescentar que os cérebros da 5 de Outubro se esqueceram deste pormenor: nas datas de exames do nono, pelo menos nas da primeira chamada, os alunos do oitavo ainda estarão em aulas. Como vai o Ministério resolver esta charada, eis a grande curiosidade para as próximas semanas.

Seja qual for a criativa solução para compatibilizar calendários, não há dúvida de que o ME já não se limita a resolver mal alguns dos problemas que existem: inventa novos problemas sem que se perceba para quê. Aparentemente, quer ver-se livre dos estudantes que se demoram na escolaridade obrigatória mais do que o necessário. Mas se o Ministério considera razoável uma decisão que pode premiar maus alunos em detrimento dos que trabalham, temos aí mais um sinal de desvario, porque a injustiça é flagrante; se parte do princípio de que isso não acontecerá porque um aluno que chumba no oitavo dificilmente passará nos exames do nono ou, passando, não prosseguirá os estudos, convém que o diga abertamente. Para não parecer que brinca, quer com os professores que têm que desencadear a manobra, quer com os alunos em causa e com as respectivas famílias.

A voz dos deuses

Sobre a obra literária de João Aguiar já falaram e falarão muitos dos seus colegas escritores. Por mim, lembro-me de como, nos finais da década de 1980, se queixava de um fantasma comum a outros autores e que também o perseguia: o êxito do primeiro romance. No gabinete editorialista do "Diário de Notícias", onde ao tempo nos consumíamos, ele, que alimentava o sonho de viver dos livros, desabafava o receio de nunca vencer o êxito do primeiro que publicou. "A Voz dos Deuses" teve um sucesso tal que, anos depois, continuava a falar mais alto do que os dois romances posteriores - "O Homem sem Nome" e "O Trono do Altíssimo". E isso afligia-o, deixando-o inseguro quanto ao seu projecto de vida.

Os receios do João eram infundados, como ele próprio viria a demonstrar com uma obra vasta, multifacetada e que lhe permitiu cumprir o sonho de ser escritor a tempo inteiro. Juntava ao talento outros trunfos não despiciendos - como ele diria com um sorriso irónico, pois detestava as palavras caras e o modo pomposo como certas figuras abusavam delas. Essas qualidades, que, nele, se juntavam ao talento, eram disciplina, método, organização e muito trabalho. Tudo isto a par de uma honestidade profissional e intelectual a toda a prova.

Foi por lhe conhecer estas qualidades que, num dia de Dezembro de 1988, depois de, em má hora, ter aceitado um convite para director do "DN" - de que me demitiria no próprio dia da posse -, me atrevi a pedir ao João Aguiar que fosse o director-adjunto. Aceitou sem hesitar, não se colocando a questão que me levara a abordá-lo com grande hesitação e reserva: a noção de que, se algum dos dois tinha condições para ser o director, era ele e não eu. Lembrei-me de "A Voz dos Deuses" e da nossa conversa desse dia ao despedir-me ontem de um jornalista e escritor de mérito reconhecido, mas que era, acima de tudo isso, um homem de carácter.

fjmadrinha@hotmail.com

Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Junho de 2010