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Fernando Madrinha

A receita de Ernâni

Fernando Madrinha (www.expresso.pt)

Os 25 anos da adesão de Portugal e Espanha à velha CEE foram assinalados com pompa num momento em que os dois países e a Europa estão mergulhados numa crise profunda. E os líderes políticos de 1985, começando por Mário Soares, aproveitaram para denunciar a falta de estratégia e de liderança na Europa, arrastando na crítica, por via indirecta, as lideranças dos dois países.

Pode parecer que, ao desmerecerem os líderes de hoje, os de ontem estejam a pôr-se em bicos de pés mais do que devem. Não estão. No confronto com a geração actual, as diferenças são abissais. E não falamos apenas dos líderes. Falamos das verdadeiras "elites" - não das que foram aqui referidas na última edição por causa das suas reformas douradas - e das figuras que puseram o seu saber, a sua coragem e honestidade políticas, bem como o seu espírito de serviço público, cada vez mais em desuso, ao dispor do país e dos tais líderes, ajudando-os a brilhar. Figuras como Ernâni Lopes, ministro das Finanças e do Plano entre 1983 e 1985, o período mais crítico que a democracia portuguesa enfrentou do ponto de vista económico e financeiro até 2008, e que antes, como embaixador em Bona e Bruxelas, deu um contributo decisivo para o êxito das negociações de adesão à Europa.

Ernâni Lopes esteve, na semana passada, no programa da SIC-Notícias "Plano Inclinado", de Mário Crespo, para uma lição de economia, política e cidadania que devia ser retransmitida no horário nobre de todas as televisões generalistas. É economista de formação, mas a sua receita para esta crise - e para todas as crises futuras - dispensa números, gráficos, percentagens, gritaria e insultos gratuitos. Toma por adquirido que os valores, as atitudes e os padrões de comportamento são a base essencial de toda a actividade económica. E apresenta uma cábula segura para o êxito, que aqui se reproduz: onde existe "facilitismo", deve haver "exigência"; onde está "vulgaridade", pôr "excelência"; onde está "moleza", pôr "dureza"; onde está "golpada", pôr "seriedade"; onde está "videirismo", pôr "honra", onde está "ignorância", pôr "conhecimento"; onde está "mandriice", pôr "trabalho", onde está "aldrabice", pôr "honestidade".

Para vencer todas as crises, basta seguir este guia de substituição. Em casa, na escola, na empresa, no ministério, no Parlamento, até nos partidos políticos, se os valores em causa lhes parecerem compatíveis. Pena que, podendo os portugueses votar, os nomes dos Ernâni Lopes que ainda existem não apareçam nas listas de candidatos.

Dar o seu melhor

Tomando-se por intérpretes e porta-vozes de um suposto sentimento nacional - não sabemos se justificada, se abusivamente -, os media projectam na selecção nacional de futebol as ansiedades e esperanças colectivas, pedindo-lhe a redenção das nossas misérias com vitórias e, de preferência, com a taça na bagagem de regresso. Algumas vozes vão lembrando que, lá por terem o mesmo número de jogadores, as equipas não são todas iguais. E algumas já o demonstraram em campo - Alemanha, Brasil, Holanda, Espanha, apesar da derrota suíça, Argentina, Uruguai, ou, noutro patamar, Costa do Marfim e Coreia do Norte. Até agora, qualquer delas provou mais do que Portugal. Mas com todas elas Portugal pode ganhar - ou empatar, ou perder, como Xavi Alonso está em condições de explicar.

O resultado nem sempre é justo porque o futebol não é, felizmente, a ciência exacta que alguns especialistas tentam impingir-nos. Se o nosso empate inaugural soube a derrota não foi porque o resultado envergonhasse ou, sequer, que fosse fatal para as aspirações portuguesas. O que desmoralizou toda a gente - adeptos do futebol e adeptos da selecção nacional, enquanto representação simbólica do nosso superego - foi a falta de ousadia em campo e a incapacidade de dar corpo à ambição que certamente anima cada um dos técnicos e jogadores. Também, fora do futebol, cada um de nós tem a sua competência própria e a sua ambição particular, mas, só por si, a soma de todas elas não faz de Portugal uma equipa ganhadora.

Muito pior do que o resultado, pior do que o futebol praticado, pior mesmo do que a "atitude" - essa palavra mágica que tem lugar cativo no jargão futebolístico -, são os "casos" que sempre envolvem e corroem a equipa, bem como a relação emocional com o país. Se a maioria dos portugueses projecta na selecção nacional mais do que deve, é natural que ela nos devolva menos do que ambicionamos. E não admira que, nesse retorno, venham alguns dos nossos piores defeitos, sendo, como é, composta por portugueses - e por brasileiros, a quem deixámos esses defeitos por herança. A culpa é sempre dos outros. A relva, o vento ou a chuva, o árbitro e as regras da FIFA, tudo serve para fugir à autocrítica, desviar as atenções do trabalho insuficiente, da liderança tíbia, da organização mal conseguida, ou da indisciplina consentida.

Este mecanismo alimentado pelos próprios seleccionadores - há exemplos no passado a demonstrarem que Carlos Queiroz não inventou nada neste domínio -, acaba por se virar contra eles. E é assim que aparecem jogadores - Nani e Deco, desta vez e até agora -, a porem em causa a sua autoridade. Talvez porque ela não é exercida com firmeza e na altura própria.

Cada país pressiona a sua selecção porque a quer vencedora. Mas, mesmo perdendo, ela pode ser merecedora do orgulho e do reconhecimento nacional. Basta que se veja à vista desarmada - outra vez o exemplo espanhol - que está ali para dar o seu melhor, do princípio ao fim de cada jogo. É o que se espera, daqui em diante.

fjmadrinha@hotmail.com

Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Junho de 2010