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Economia Real

Sócrates e o europroblema

Luís Mira Amaral (www.expresso.pt) *

Sócrates, o filósofo grego, não teria conseguido melhor. Toda a gente fala da Grécia. Sócrates, o pragmático, diz-se então vítima do contágio...

A eurocrise tinha todos os condimentos de uma tragédia grega: um país (Grécia) que mentiu sobre o estado das suas finanças públicas (começou logo na preparação para o euro); que veio revelar a dimensão do buraco no pior momento de nervosismo dos mercados financeiros; mercados que especulam naturalmente com o risco da sua falência; dirigentes europeus que hesitam e se atrasam na resposta.

Houve uma boa dose de cegueira colectiva: primeiro, sobre as finanças públicas gregas; segundo, a ideia de que não deveria haver mecanismos prévios de gestão de crises de finanças públicas pois tal incitaria à irresponsabilidade e imprudência de alguns; terceiro, o de que se tal acontecesse, esse Estado-membro deveria pura e simplesmente ir à falência, o que afinal, ao fim de alguns anos de zona euro não é tão simples como isso. A senhora Merkel, ou aguenta a Grécia, ou vê estoirarem alguns bancos alemães cheios de títulos públicos gregos e não só...

Sabia-se que a zona euro não era uma zona monetária óptima como os EUA. Como explicaria a Teoria dos Sistemas, se acabavam as taxas de câmbio entre países, era preciso arranjar outros graus de flexibilidade e ajuste para o sistema económico, o que não foi feito.

Se eu fosse alemão, compreendia que era preciso pôr o 'med club' na ordem, impondo quer severos programas de ajustamento orçamental e de reformas estruturais, quer o avanço para uma federalização (ou soberania partilhada) das políticas económicas, orçamentais e fiscais de países do euro. Mas também perceberia que a Alemanha ganhou muito com o euro, vendendo mais (embora muitas vezes a crédito...) aos países do sul e que teria de ajudar, actuando como locomotiva europeia e não entrando em programas de austeridade ao mesmo tempo dos outros.

A Grécia foi retirada por três anos dos mercados com o pacote UE-FMI. Mas quando regressar, conseguirá então servir uma dívida pública que chegará em 2012 aos 150% do PIB? É evidente que não e por isso será conveniente começar a pensar já numa reestruturação, ou seja num default ordenado com algum haircut (perdão) de capital...

Vejo então três cenários para a zona euro: (1) A Alemanha farta-se e sai do euro. Ficamos a falar sozinhos; (2) Na sequência dos dramáticos programas de ajustamento, há pulsões populistas e nós, gregos, portugueses ou espanhóis, queremos sair do euro, julgando que nos safamos com a desvalorização. A zona euro reconstitui-se à volta da velha zona marco (Alemanha + Benelux), talvez com a França e novos aderentes. Será um euro mais germanizado, sem o 'med club'; (3) Refundação do euro com avanços no federalismo económico, fiscal e orçamental (o que nos imporá e bem grande rigor nas finanças públicas) e mecanismos de gestão de crises com cláusulas de reestruturação de dívidas públicas.

*Prof. Economia e Gestão IST

competitividade2@sapo.pt

Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Junho de 2010