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Economia Real

Reestruturações empresariais

Luís Todo Bom (www.expresso.pt) *

Existe uma questão recorrente sobre as reestruturações empresariais que é a seguinte: devem ser realizadas nas fases de crescimento ou de estagnação económica?

Embora os manuais académicos refiram que as reestruturações empresariais se devem realizar durante as fases de crescimento, uma vez que a dinâmica de mercado e a existência de meios libertos positivos substanciais permitem acomodar os choques das alterações organizativas e operacionais, a realidade mostra que a grande maioria das reestruturações empresariais ocorre em fases de estagnação ou mesmo de crise económica.

O 'racional' desta situação baseia-se na seguinte aproximação dos gestores executivos: nos períodos de crescimento económico, a empresa deve concentrar todos os seus reforços no sentido de aproveitar o dinamismo do mercado para maximizar as vendas, a sua quota de mercado e os resultados, não tendo tempo para se preocupar com aspectos organizativos ou de reestruturação de negócios; nas fases de estagnação ou de crise, em que a palavra-chave é sobrevivência, a empresa deve aproveitar o marasmo do mercado para efectuar os ajustamentos estruturais necessários.

Tenho uma discordância teórica clara em relação a esta aproximação, defendendo que as boas empresas podem e devem realizar acções de reestruturação empresarial em ambas as situações de mercado, embora com objectivos e metodologias distintos.

Nas fases de crescimento, devem promover ajustamentos organizacionais e operacionais que lhes permitam maximizar, em situações de competitividade estruturalmente consolidadas, os resultados da organização e a melhoria clara do seu posicionamento competitivo, nomeadamente em termos da sua quota de mercado e da sua base de clientes.

Nas fases de estagnação ou de crise devem promover os ajustamentos organizacionais que lhes permitam optimizar os custos, gerir a liquidez, reformular os processos, analisar novos mercados, aperfeiçoar os produtos e serviços e rever a cadeia de valor, ou seja, um conjunto de acções que lhes permita não só ultrapassar a fase de crise sem turbulência excessiva mas, sobretudo, preparar a organização para a fase de crescimento futuro que se seguirá à de estagnação.

No momento presente tenho acompanhado processos de reestruturação de empresas angolanas que se enquadram na primeira aproximação e de empresas portuguesas que seguem a segunda, embora se verifiquem em ambos os casos algumas preocupações comuns, no âmbito da liquidez, selecção de clientes e processos de diferenciação.

Mas este paradigma só é aplicável às boas empresas, que, nem sempre, constituem a maioria do tecido empresarial dos diferentes países; as outras, tentam sobreviver a qualquer custo (normalmente mal) nas épocas de crise e desperdiçam recursos (que lhes farão falta nas fases seguintes) nas épocas de crescimento.

A esperança no futuro reside, assim, na substituição das más por boas empresas. Tenhamos fé!

*Professor associado convidado do ISCTE

Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Junho de 2010