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Economia Real

Projectos de investimento em Angola

Luís Todo Bom (www.expresso.pt) *

No actual estádio de desenvolvimento económico de Angola, ocorre, como é natural, uma explosão de novos projectos de investimento nas diferentes áreas de actividade.

A adopção das melhores técnicas disponíveis na preparação, avaliação e decisão sobre novos projectos de investimento é, portanto, crucial, para se evitarem erros que penalizem os agentes empresariais envolvidos - promotores e financiadores. Pude constatar, no entanto, num conjunto de dossiês de projectos de investimento a que tive acesso, a adopção de metodologias pouco rigorosas e uma grande fragilidade teórica na adopção dos vários conceitos e suas aplicações.

Verifica-se, aliás, neste momento, em alguns projectos imobiliários em Luanda, um conjunto de erros e imperfeições que integram uma lista que consta do manual que escrevi e que dou aos meus alunos de Projecto Empresarial, de que se destacam: uma análise deficiente do mercado; a adopção de uma aproximação de imitação de projectos semelhantes; contas de exploração optimistas em relação aos preços de venda e aos custos; planeamento financeiro deficiente e optimista em relação aos custos financeiros; planeamento inadequado da construção através da má utilização das redes PERT, com repercussões ao nível do time-to market e respectivos mapas de cash flow; e, finalmente, a determinação de taxas de rentabilidade claramente irrealistas. A alteração desta situação, essencial para garantir a robustez económica e financeira dos promotores empresariais e entidades financeiras, só é possível, em minha opinião, com uma intervenção determinada destas últimas, criando, eventualmente, entidades financeiras especializadas no apoio ao investimento sectorial nas áreas consideradas estratégicas para o desenvolvimento do país.

De facto, as entidades financeiras têm os recursos humanos, técnicos e financeiros, para além de uma especial sensibilidade para a importância da correcção técnica dos dossiês de projectos de investimento, o que lhes permite actuar de uma forma preventiva e estruturada na melhoria da qualidade técnica destes documentos.

A minha experiência como presidente do Fundo de Turismo, em termos de pedagogia desenvolvida junto dos promotores turísticos em Portugal, foi muito positiva, no âmbito das metodologias aplicadas, normalização de documentos-base para a preparação e avaliação dos projectos, construção de uma base estatística de referência para as variáveis críticas e aproximações correctas ao cálculo dos respectivos indicadores de rentabilidade.

A melhoria do sistema estatístico angolano, sobretudo nas áreas sectoriais mais significativas para o seu desenvolvimento, é também crucial e deve ser objecto de atenção imediata.

Este caminho de aprofundamento teórico e melhoria da qualidade dos projectos é longo e exige persistência e determinação. Mas é absolutamente necessário.

*Professor Associado

Convidado do ISCTE

Texto publicado na edição do Expresso de 8 de Maio de 2010