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Economia Real

O lóbi eólico

Luís Mira Amaral* (www.expresso.pt)

Temos assistido, com total silêncio da imprensa portuguesa, à acção do governo espanhol para a redução dos exagerados apoios à eólica e fotovoltaica, o que vem confirmar a validade das nossas observações no Manifesto, e também observamos um verdadeiro milagre económico em Portugal: segundo a hilariante versão do lóbi eólico, quanto mais elevado for o custo de produção das energias renováveis, mais elas contribuem para baixar os preços da electricidade...

Carlos Pimenta, meu brilhante aluno de Produção e Transporte de Electricidade no IST, foi o ideólogo do pensamento único ecotópico e é hoje um importante player económico nas eólicas. Oliveira Fernandes foi o responsável político pelo lançamento do programa E4 no Governo Guterres que fixou os elevadíssimos preços políticos da venda de energia à rede, não impondo a obrigação dos promotores fazerem os equipamentos eólicos em Portugal.

Depois, as duplas Álvaro Barreto/Lancastre e Pinho/Castro Guerra tentaram (e bem) minorar os exageros do E4, baixando os preços de venda à rede e impondo contrapartidas industriais aos promotores. Começava assim aquilo a que se chamou impropriamente o 'cluster eólico'. Mas Portugal chegou tarde e ficou atrasado em relação a outros países como a Alemanha, Espanha e Dinamarca no desenvolvimento tecnológico dos aerogeradores.

Graças à maturidade tecnológica obtida nas eólicas, chegou o momento de abandonarem esta fixação política dos preços por decreto, o 'capitalismo decretino' (capitalismo por decreto), e começarem a entrar em rede a preços de mercado. Quando uma nova forma de energia cria externalidades positivas, o Estado deve então, na avaliação do projecto, calcular esse apport positivo e pagar isso com subsídios financeiros e incentivos fiscais ao investimento, entrando então o projecto no sistema a preços de mercado, competindo com as outras formas de energia. Foi o que fiz na introdução do gás natural em Portugal. Carlos Pimenta, que gosta muito de citar o apoio público que dei ao gás natural, tem dificuldades em ver a diferença. Como não lhe ensinei Economia no IST merece uma certa indulgência... O mesmo se passa com Costa Silva que não percebe a diferença entre o 'capitalismo decretino', que tanto adora, e os contratos de venda à rede, assumindo preços de mercado na venda da energia, que fiz para as Centrais do Pego e da Tapada de Outeiro e que extendi a todas as centrais da EDP, pondo-as todas em igualdade de circunstâncias.

Estava eu impressionado com os números que o Carlos Pimenta enumerava para a exportação da fábrica de aerogeradores de Viana do Castelo (centenas de milhões de euros!!!) quando fui surpreendido pelo nosso especialista em ventania mediática com a compra à Vestas de aerogeradores. Afinal onde estará o contributo do 'fortíssimo cluster eólico português' de que fala Carlos Pimenta? Das duas uma, ou o Estado não impõe o interesse nacional na EDP ou o tal cluster não pode satisfazer a procura da EDP para os mercados externos...

*Professor de Economia e Gestão - IST

Texto publicado na edição do Expresso de 22 de Maio de 2010