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Expresso

Daniel Oliveira

Voto útil

Quando apoio um partido não espero um mundo novo. Basta-me concordar com o seu programa e acreditar que o vai tentar cumprir. E nada como começar pela minha rua para saber se valeu a pena. Por isso, quando voto espero que o meu voto seja usado para o que serve: o exercício do poder. Se é impossível, fica-se na oposição. Se é possível, assumem-se responsabilidades. No meu caso, quero que o partido em que votei use o meu voto para fazer oposição ao péssimo Governo que temos, porque mais do que isso é impossível. E, em Lisboa, quero que comece a cumprir pelo menos uma parte do programa que apresentou, porque isso parece ser possível. Como sempre achei que as eleições de Lisboa não eram as primárias das próximas legislativas, porque sou lisboeta e porque o poder não me enoja, fiquei contente com o acordo entre Sá Fernandes e António Costa.

O partido que ajudei a fundar dá agora um enorme salto político. Numa cidade com a importância de Lisboa, um candidato por ele apoiado será testado no poder. Com alguma sorte e muito trabalho mudará alguma coisa concreta na vida de pessoas concretas. Para a próxima, em vez de votos descontentes terá, se merecer, alguns votos de contentamento. Bem sei que para quem procura a pureza na política será uma desilusão. Só que a pureza está destinada aos santos. E Deus nos livre dos santos da política. Ou são inúteis ou são perigosos.

Tabu

Longe da Ibéria, só agora me chegam novas da polémica em torno da edição de um jornal humorístico espanhol que teve o desplante de representar os príncipes das Astúrias em cenas pouco aristocráticas mas fundamentais para a descendência. Brincava o jornal com o facto de, pagando o Governo de Zapatero por cada rebento pátrio, o aspirante a monarca ter finalmente qualquer coisa que se assemelhasse a um emprego. Um tribunal achou que a coisa ofendia um símbolo pátrio e mandou confiscar o jornal.

O caso causou indignação entre alguns colunistas desta república vizinha. Andam desatentos. Diz o Código Penal português que brincadeiras com a bandeira ou com o hino dão pena de prisão até 2 anos. Todos nos indignamos muito com as censuras alheias, sejam para defender príncipes ou Maomé, mas achamos normal que a prisão esteja destinada a quem resolva ultrajar um bocado de pano ou uma canção. E, no entanto, não deveria haver nada de mais natural do que a liberdade de qualquer cidadão expressar o seu desprezo pelos símbolos de uma nação que não escolheu. Porque nenhuma bandeira pode querer valer mais do que a liberdade. Aqui está um caso em que tiro respeitosamente o chapéu aos Estados Unidos da América. É o único país que conheço em que a bandeira nacional pode ser queimada, pisada e maltratada sem castigo. Isso sim, é uma bandeira que se dá ao respeito.

'SHOTS'

Quando se fica pequeno e não é por causa da altura. Marques Mendes foi pela primeira vez ao comício de Chão da Lagoa pedir a bênção a Jardim. No meio da confusão, Alberto João perguntou: "onde está esse sacana?" E gracejou: "É tão pequenino que ninguém o vê". Falava de um "líder" que gostava de ser primeiro-ministro.

Daniel Oliveira