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Expresso

Daniel Oliveira

Ser deputado

Ser escolhido por um povo para o representar deveria ser encarado como a maior de todas as responsabilidades. Deveria, mas não é. As razões para a degradação da imagem dos deputados, que nenhuma engenharia eleitoral resolverá, são antes de mais políticas. Num país que vive na adolescência da democracia, o espaço do confronto parlamentar é desprezado por políticos e eleitores. Numa sociedade injusta e desigual, os cidadãos parecem não encontrar nos representantes que elegeram a sua própria voz. Como se fosse indiferente quem lá se senta.

Quanto menor o prestígio do deputado, menos qualificado será quem aceita ocupar o lugar. Fora dos partidos mais distantes do poder e tirando alguns políticos com maior notoriedade, os deputados são vistos como carreiristas sem autonomia. Longe vão os tempos das bancadas de luxo da Assembleia Constituinte e dos anos seguintes. É normal: quem estava naquele hemiciclo fazia história. Hoje, o mais que se pede a anónimos de segunda linha é que apareçam, como figurantes, no plenário. E muitos nem isso conseguem.

O triste episódio da ausência de dezenas de deputados na votação da suspensão da avaliação dos professores e a solução apresentada por Guilherme Silva para combater o absentismo (acabar com as sessões à sexta-feira) são mais uns pregos no caixão da dignidade do Parlamento. Pelo menos numa coisa há sintonia entre parte dos eleitos e dos eleitores: uns e outros dão pouca importância àquela que deveria ser a casa da democracia.

Mas como a democracia continua a ser o pior dos sistemas sem contar com todos os outros, só a exigência dos cidadãos pode ser eficaz. Neste caso até é simples: saberem que deputados do seu círculo eleitoral faltaram e as suas razões. E se não ficarem satisfeitos e os partidos os mantiverem nas listas, agir em conformidade. A melhor forma de premiar os incompetentes é atacar todos por igual. Quem não leva as suas funções a sério vive bem com a culpa sem rosto. São os outros, os melhores, que vão desistindo.