Siga-nos

Perfil

Expresso

Daniel Oliveira

Quem rema neste barco?

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

Os consumidores têm de compreender o aumento do IVA. A crise é mesmo a sério e todos temos de contribuir. Os contribuintes têm de compreender o aumento geral do IRS. Isto está mesmo mal e não há dinheiro nos cofres públicos. Os desempregados têm de compreender os cortes no subsídio para o qual descontaram. O Estado não tem dinheiro e eles terão de puxar pela imaginação para sobreviver. Os beneficiários do Rendimento Social de Inserção têm de compreender porque se fez um corte no RSI. Com a crise, os portugueses não aceitam que se gaste dinheiro para evitar a fome. Os pais têm de perceber o encerramento de escolas a eito. Portugal não pode pagar a despesa de ter Interior.

Os bancos têm de compreender... Na realidade, os bancos já não tinham de compreender nada. Continuam a pagar menos IRC que as restantes empresas deste país. Mas agora sabemos mais: esta semana, o Governo pagou o empréstimo de 450 milhões de euros que seis bancos portugueses concederam, em 2008, ao Banco Privado Português, com aval do Estado, para salvar uma instituição que teve uma gestão ruinosa e que enganou os seus clientes. Parte dos sacrifícios dos contribuintes, consumidores, desempregados, pobres e famílias serve para pagar os erros de gestores incompetentes. Para só lhes chamar isto.

Não, não é verdade que todos façam sacrifícios. Nunca foi. Não é por acaso que somos o país da União Europeia com a maior desigualdade salarial. Sim, estamos todos no mesmo barco. Só que uns remam e outros fazem a viagem de borla. E ainda ficam com os coletes salva-vidas para si.

Europa irracional

As agências de rating não acreditavam que a Grécia pudesse pagar a sua dívida. Por isso desceram-lhe a cotação. Os mercados precisavam de sangue. Passados uns meses a agência Moody's está contente com o pacote de medidas: "incentiva a implementação de um conjunto de reformas estruturais credíveis e viáveis". Ficaram contentes com a sangria mas não gostam do aspecto do doente. Por causa dos "riscos macroeconómicos e de implementação associados a este programa" baixaram ainda mais a nota grega. Agora é lixo.

As agências de notação trabalham para os especuladores. São um barómetro para o jogo. Permitir que seja a irracionalidade económica destas notações, sem qualquer base rigorosa de sustentação e em busca da quadratura do círculo, a definir a política dos Estados seria o mesmo que dirigirmos os destinos políticos de um país guiados pela gritaria de uma multidão.

Mas são elas que determinam os juros da dívida. Temos por isso duas alternativas. Uma é viver sem dívida. É um absurdo para qualquer indivíduo, empresa ou país. A outra é ser a Europa a emitir a dívida e a emprestar directamente aos Estados. Para isso temos de rever o Tratado de Lisboa. Lembram-se? É aquele que ninguém quis discutir. Em vez disto, a Europa porta-se como as agências de rating, dizendo bem e depois mal das políticas económicas dos Estados, aplaudindo e depois pedindo mais cortes, tornando qualquer estratégia racional numa impossibilidade prática. O problema desta Europa sem líderes é simples: não nos governa nem nos deixa governar.

danieloliveira.lx@gmail.com

Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Junho de 2010