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Expresso

Daniel Oliveira

Patriotismo falhado

Um estudo do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa diz-nos que os portugueses são do mais nacionalista que por esse mundo se encontra. São dos que mais associam a identidade nacional às características étnicas, ou seja, a uma suposta nacionalidade original. São os que mais valorizam o seu passado. Mais do que a França ou o Reino Unido. E são, pasme-se, dos poucos que maioritariamente defendem que devem apoiar o seu país mesmo quando este tem posições que consideram erradas. Mais do que os americanos, o dobro dos franceses e quase o triplo dos ingleses.

Quando chegam ao país onde realmente vivem, são bem mais severos. Não se orgulham da sua democracia, de quem os governa e da sua segurança social. Ou seja, a identidade nacional vive de memórias, da pureza étnica e da falta de exigência. E talvez aqui resida o nosso falhanço enquanto Nação. Não aprendemos nada com o passado porque somos incapazes de qualquer olhar crítico em relação a ele, desprezamos o cosmopolitismo e por isso o mérito e não baseamos a nossa identidade em nada que dependa de nós próprios. Não sou nem nunca fui um patriota. Mas há patriotismos que posso entender: aqueles que se exigem a si próprios algumas provas de vida. Este, preguiçoso, nostálgico e racista, é apenas um retrato fiel da nossa decadência.

O Capitalismo português

O ferrete do Estado e a forma como condiciona a livre iniciativa privada tem sido o grande argumento de muitos empresários para justificar a sua falta de competitividade. Mas um bom exemplo do que é a média dos nossos empresários é o ensino superior. As universidades privadas não se podem queixar. Tiveram a clientela, dinheiro e liberdade para mostrar o que valiam. Podiam ter investido na qualidade e em áreas e horários em que o público era deficitário. Os mais sérios ficaram-se pelos cursos de papel e caneta, onde sobram licenciados, as margens de lucro são astronómicas e o retorno do investimento é rápido. Os menos sérios viram-se envolvidos em suspeitas de lavagem de dinheiro e puro banditismo.

A história da Universidade Independente, que parece ser "remake" pouco imaginativo do que já se passou na Lusófona, na Moderna e na Livre, é uma excelente caricatura da nossa economia. A verdade é esta: com muito honrosas excepções, o ensino superior público é mais competente. O empresário português ainda sofre de todas as doenças de um capitalismo atrasado: vive do lucro rápido e de uma relação promíscua com a economia paralela; não pensa a longo prazo e, sem uma mãozinha do Estado, entra em colapso. Olhando para as universidades privadas os nossos liberais encontram resposta às suas inquietações: por que são tão poucos em Portugal? Porque não há qualquer relação entre o que defendem e a vontade daqueles que querem defender.

'SHOTS'

  • O Parlamento era só a sala de espera. Parece que Paulo Portas vai regressar à política.
  • Daqui a 130 mil anos a lei resulta. Da lei das rendas que o Governo aprovou há um ano apenas resultaram três acordos entre senhorios e inquilinos. A lei abrange 390 mil contratos.

danielo@netcabo.pt