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Expresso

Daniel Oliveira

O verniz

Ao que parece, os conselheiros do CDS fazem referências menos abonatórias às mães uns dos outros. Acusam-se mutuamente de racismo, o que nos deixa a todos espantadíssimos. E quando a coisa aquece, garantem alguns, partem para a bofetada. Na verdade, os tabefes para resolver contendas políticas têm pergaminhos no partido. Quem não se lembra do telúrico eurodeputado Rosado Fernandes, que um dia foi às eurofuças de um colega seu por este o acusar, seguramente com injustiça, de estar a soldo das tabaqueiras? Mas tudo isto são "fait-divers" ao pé da profunda reflexão que domina hoje a vida interna do CDS: se alguém no CDS conhece os estatutos do CDS e se neles está escrito que o partido tem de mudar todo o seu calendário interno de cada vez que um ex-líder acorda com saudades do Largo do Caldas.

Cada um à sua maneira, o centrista Freitas do Amaral, o conservador Adriano Moreira e o moderado Lucas Pires foram dando camadas de verniz a um partido com uma base política pouco familiarizada com a democracia. E há anos que Portas anda a dar cabo de tão laboriosa obra de restauro. Libertou a fera caceteira do seu partido. Hoje, o CDS recorda com especial violência a sua crónica crise de identidade. Vivem num caos permanente, não se entendem em relação às regras pelas quais se regem e não há dia em que não ponham em causa a sua lei interna. Mas garantem, sem ruborizar, que são legalistas e conservadores.

Imaculada purificação

Foi na Polónia que começou a queda do comunismo e, depois, a democracia e o alargamento da União Europeia. E é ali que começa agora uma nova fase da história do Leste: a da 'purificação'. Uma vingança histórica dirigida pelos irmãos gémeos ultraconservadores Kaczynski, Lech na presidência, Jaroslav no Governo. Purificação, antes de mais, através de uma lei com o mesmo nome, que obriga mais de meio milhão de polacos a declarar se colaboraram com a polícia política da ditadura. Com os dossiês nas mãos, os homens dos Kaczynski fazem as suas "vendettas". E Lech Walesa já foi considerado um colaboracionista do comunismo. E purificação política e moral. Sem comunismo, a Polónia procura a sua identidade: a identidade católica contra a pluralidade religiosa europeia. E assim tem sido aprovada legislação impensável contra os direitos das mulheres e das minorias, tendo sido proibido que se debata a homossexualidade nas escolas, ao mesmo tempo que o Estado faz campanhas contra o preservativo. A isto, junta-se o histórico anti-semitismo polaco e uma dose pragmática de pró-americanismo primário contra o "perigo europeísta".

O Leste vive o trauma das ditaduras comunistas e os efeitos de uma transição rápida e selvagem para o capitalismo. A receita para a catástrofe é conhecida. Cinquenta anos depois do Tratado de Roma, talvez a Europa deva começar a prestar atenção a um dos maiores países da União. Este é o preço que pagamos por uma unidade económica sem unidade política. Somos a maior economia do mundo. Só não temos estruturas democráticas europeias que a sustentem. Podemos adiar. Até ao dia em que a Nova Europa siga o exemplo purificador dos irmãos Kaczynski.

Daniel Oliveira