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Expresso

Daniel Oliveira

O poder do pastor

A defesa de uma 'ecologia humana' que salve o homem da sua própria destruição, feita por Bento XVI antes do Natal, causou grande controvérsia. Para o Papa, como para a Igreja Católica em geral, o homem e a mulher têm um papel determinado por Deus ou, por outras palavras, pela Natureza. A identidade de cada homem e de cada mulher só pode ser a 'natural'. A liberdade é um vício e o prazer é um perigo. Bento XVI diz o mesmo que ouvimos há tanto tempo. Talvez usando uma argumentação lógica e mais abstracta, talvez socorrendo-se de imagens da moda, mas o mesmo de sempre.

A verdade é que é na sua sexualidade que cada indivíduo se prova único e irrepetível na sua identidade. É onde a liberdade se afirma de forma mais incontrolável. Pondo em causa todos os papéis e, pecado dos pecados, a própria ideia de género. Nada disto é de hoje. Agora é que falamos do assunto fora de casa. E ao falarmos disso e exigirmos ser respeitados pelo que somos transformamos a liberdade privada em liberdade pública e pomos em causa a ordem das coisas.

A Igreja Católica, como todas as igrejas, teme a liberdade e a desordem. Sem qualquer juízo de valor, elas são contrárias à sua natureza. O Papa pode usar os pandas e a Amazónia como metáforas e a natureza como argumento - apesar de nada haver de menos 'natural' do que a abstinência sexual exigida aos sacerdotes católicos -, mas não é a sobrevivência da espécie que o move. É o poder. Se cada um decidir o seu lugar na sua própria existência qual será o lugar do clero? Se cada um escolher o seu próprio caminho, sem seguir o rebanho, para que servirá o pastor?

Relevante é a prioridade absoluta dada por Bento XVI (ainda mais do que o seu antecessor) a estes temas. Quando o mundo - e com ele os católicos - vive o medo da pobreza, é das teorias do género que lhe fala o Papa. É verdade que a Igreja se preocupa com a miséria e ajuda muita gente. Mas não se assusta com ela porque ela não põe em causa o seu poder. É o conforto, que traz com ele a autonomia e a escolha, que o Papa teme. Por isso escolheu a Europa como seu campo de batalha. Não é hipocrisia. Faz todo o sentido.

A força bruta

Não, não podiam ter os jovens europeus mais razões para a revolta. São a primeira geração em muitas décadas a viver pior do que os seus pais. A geração mais preparada de sempre, condenada a viver indefinidamente com 500 euros e sem segurança. Não, não foi uma calamidade natural. A tragédia desta geração resulta das nossas escolhas políticas. Eles preparam-se para viver na Europa dos nossos bisavós. E não querem.

Mas na sua justificada revolta, os jovens gregos são conservadores. Ao escolherem a violência dão-nos a alternativa que já conhecemos. Porque a violência das manifestações é apenas uma mímica do poder. E é, antes de mais, uma forma de opressão. É a lógica da lei do mais forte que usa o medo como táctica política. O mais animal dos medos: o medo físico.

Quando vejo alguém sacar de uma pedra para libertar os outros, suspeito logo que um dia ela será dirigida a quem se promete a liberdade. Ser radical é mostrar como poderia ser diferente. E se os meios transportam em si os fins, não se pode combater a opressão exibindo opressão.

Daniel Oliveira