Siga-nos

Perfil

Expresso

Daniel Oliveira

O pai tirano

Três dísticos à porta de um café: proibido fumar, proibido entrar com animais, proibido estar de tronco nu. Lá dentro: vários avisos sobre diversas proibições, obrigações e imposições a propósito de salgados, bolos e bebidas, sempre com referência ao decreto lei correspondente. Tudo isto apenas para tomar um café. Numa sociedade onde eu goste de viver, o Estado cobra impostos e devolve-os, redistribuindo-os em saúde, educação, transportes públicos, espaços verdes ou apoio aos desempregados. E deixa para os cidadãos a auto-regulação do seu quotidiano, legislando apenas quando o desequilíbrio de poderes transforma a liberdade do mais forte numa imposição a todos. Nem sempre as duas coisas são fáceis de conjugar. Como impedir uma minoria poderosa de impor a sua vontade sem criar um Estado omnipresente?

Mas temos conseguido o oposto: quando mais o Estado abandona as suas funções sociais e deixa de intervir como árbitro em relações de poder desiguais (como as do trabalho), mais aumenta a sua presença no quotidiano dos cidadãos. Faz sentido. Se o Estado não quer gastar dinheiro com a nossa saúde ou nos deixa morrer ou limita a nossa liberdade. Se o Estado não quer planear as cidades ou dar apoio social põe um polícia em cada esquina. Uma sociedade que desiste do ideal igualitário não pode confiar na liberdade dos seus cidadãos. Eles estão demasiado zangados. Aquilo a que assistimos nos últimos anos em Portugal é um excelente retrato do que nos espera: o mesmo Estado que fecha urgências quer convencer-nos a deixar de fumar. O mesmo Estado que não nos protege do despedimento arbitrário protege-nos dos perigos da bola de Berlim. Não se espante por isso o presidente da ASAE que a sua cigarrilha lhe possa custar o lugar. Quando políticos e burocratas não têm nada para oferecer aos cidadãos resta-lhes dar o exemplo, distribuir virtude e cobrar coimas.

Baile no Iowa

Juntam-se em igrejas e bibliotecas. Às vezes em casa de vizinhos. Cada um dos poucos eleitores democratas que se dá ao trabalho de participar neste bailarico eleitoral vai para o canto da sala correspondente ao candidato que apoia. As cabeças são contadas. Os que votaram em candidatos escolhidos por menos de um sexto dos presentes são convidados a mudar o seu 'voto'. E faz-se este jogo das cadeiras de novo. O processo pode demorar mais de cinco horas e são permitidas ofertas aos eleitores. É assim, sem voto secreto, com círculos eleitorais de dimensões completamente diferentes a valerem o mesmo e com orçamentos e propaganda do século XXI a manipularem um sistema eleitoral do século XVIII que o Iowa escolhe o candidato democrata mais votado nas primeiras primárias americanas. E porque são as primeiras acabam por ser determinantes. Não deixa de ser assustador saber que o homem mais poderoso do mundo, que decidirá muito das nossas vidas nos próximos anos, começa a ser escolhido como se fosse presidente de uma filarmónica. Melhor isto do que nada, é certo. Mas este circo anacrónico demonstra os perigos do conservadorismo: quase nunca conserva realmente alguma coisa a não ser os seus próprios defeitos.

Daniel Oliveira