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Daniel Oliveira

O caminho para a servidão

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

Esta semana ouvi, numa reportagem sobre a excisão em África, uma médica alemã que trabalha com as vítimas desta bárbara tradição explicar porque aceitam as mulheres africanas fazer isto às suas filhas: a integração na família e na tradição é fundamental para a sobrevivência. Naqueles países não há segurança social, serviço público de saúde, reformas ou infantários. É a família que garante tudo e ela detém todo o poder sobre os indivíduos.

A estratégia de destruição do Estado daqueles que se dizem liberais só nos pode levar à perda da liberdade individual. O salto da excisão em África para os liberais na Europa pode parecer absurdo. Mas não é. A criação do Estado Social foi uma das maiores conquistas para a defesa da autonomia dos indivíduos. A escola pública tornou-nos mais autónomos da nossa condição social e religiosa. A segurança social libertou-nos das nossas famílias. As leis laborais permitiram que deixássemos de ser escravos do nosso patrão. Através do Estado Social construímos, na segunda metade do século XX, as sociedades mais livres da história.

Não é preciso fazer futurologia. A destruição do Estado Social, que está a ser acelerada com esta crise, já começa a dar os seus resultados. Com a liberalização do mercado de trabalho o emprego é cada vez mais precário. Os filhos saem mais tarde de casa dos pais. Os trabalhadores aceitam tudo sem resistir. Hoje, somos mais dependentes das nossas famílias e dos nossos patrões do que éramos há trinta anos.

O tempo não volta para trás. Não será provável que a nossa perda de liberdade chegue ao ponto de voltarmos a violentar as nossas filhas para que elas sejam aceites por aqueles de quem dependerão. Mas outras formas de servidão se vão insinuando.

Ditadura da opinião

Se lermos os principais jornais por esse mundo fora encontramos vários pontos de vista sobre esta crise. Economistas como Joseph Stiglitz explicam que a política de austeridade é o caminho para a desgraça europeia. Lemos artigos sobre a Europa e a falta de mecanismos de intervenção, a especulação, a falta de regulação, as culpas alemãs.

Ligamos a televisão portuguesa e a coisa é exasperante. Desfilam economistas que se repetem uns aos outros: vivemos acima das nossas possibilidades, temos de cortar, precisamos de menos Estado. A coisa é repetida com uma extraordinária arrogância, já próxima da insolência, como se o ralhete à Nação tivesse passado a ter estatuto de ciência exacta. Comentadores, colunistas e políticos repetem o discurso. A união nacional da opinião instalou-se e o pluralismo foi pura e simplesmente abolido no espaço mediático. Se Stiglitz repetisse aqui o que disse numa entrevista ao "Le Monde" seria ouvido como um radical delirante.

Esta crise mostrou-nos que o nosso principal problema democrático não são as interferências de Sócrates na TVI. São o domínio absoluto de quase todos os media por um grupo ideológico. Ao contrário do que acontece em França, Reino Unido ou Estados Unidos, há, na comunicação social portuguesa, uma ditadura da opinião. Quando, hoje, umas centenas de milhar de portugueses forem para as ruas, revelar-se-á, para espanto de quem vê Portugal através da televisão e dos jornais, um país que parece não existir para os media.

danieloliveira.lx@gmail.com

Texto publicado na edição do Expresso de 29 de Maio de 2010