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Expresso

Daniel Oliveira

O arquitecto

As duas principais obras de Yamasaki acabaram reduzidas a pó. O complexo habitacional de Pruitte-Igoe, uma autêntica cidade para trinta mil almas, em Saint-Louis, foi inicialmente pensado para ter uma parte reservada para brancos e outra para negros. Só que o Supremo Tribunal proibiu a segregação. Os brancos, que não queriam misturas, debandaram. Os negros de classe média também. Quando empreiteiros e poder político perceberam quem por ali ficaria trataram de poupar. Pruitte-Igoe tornou-se uma tal catástrofe social que foi implodida vinte anos depois da sua construção. O arquitecto Minoru Yamasaki só se redimiu deste fracasso quando foram inauguradas as suas Torres Gémeas, em Nova Iorque. Inspirou-se nas mesquitas que vira na Arábia Saudita e no Irão. Ao procurar fazer a Meca do mercado, a síntese entre o Ocidente e o Oriente, Yamasaki não sabia como a sua obra se tornaria um símbolo do confronto entre estes dois mundos. Também ela acabaria em ruínas.

É sobre as consequências involuntárias de cada acto do homem, no caso do criador, que trata 'O Arquitecto', um livro de Rui Tavares. Mas esta peça de teatro, quase toda centrada numa conversa entre Yamasaki e um político falhado do Sul, seu amigo, fez-me pensar noutra questão: a relação entre criação e a vida política colectiva. A democracia repousa na racionalidade, no consenso e na cedência. A negação de qualquer ideia de genialidade. E se as consequências da criação são uma lotaria, a arquitectura deveria limitar-se a entregar à comunidade ideias inacabadas e com todos os espaços de fuga. Porque a genialidade é uma forma de tirania.

Indignação colonial

A vinda de Robert Mugabe a Portugal para a reunião entre a União Europeia e a União Africana, em Dezembro, está a causar indignação. Não deixo de me espantar com a selectividade. Como bem recordou Durão Barroso, a Europa relaciona-se com ditadores de todo o mundo, sem que tal pareça incomodar especialmente seja quem for. Se reúne com uma organização africana, é de esperar que seja ela a decidir a composição da sua delegação. Sócrates e Barroso terão a oportunidade de dizer ao senhor Mugabe que talvez não seja má ideia reformar-se e deixar em paz os seus opositores. Duvido que o façam e tenho pena. Mas os seus direitos acabam aqui. Mais do que isso seria uma falta de respeito, não por Mugabe, que não o merece, mas por todos os africanos que, mal ou bem, saberão tratar de si.

Esta reacção revela hipocrisia, oportunismo e paternalismo. Hipocrisia, porque quem aceita que a Europa vá armando todas as sangrias e tratando dos negócios de todos os ditadores africanos mostra-se agora melindrado. Oportunismo, porque no meio de todos os crimes de Mugabe é os que cometeu contra os brancos que incomodam. Paternalismo, porque este episódio só podia acontecer quando está em causa uma reunião com as nações africanas. Os europeus mantêm alguns tiques coloniais. Julgam ter um qualquer ascendente moral sobre os africanos. Se quisessem combater a miséria africana teriam alguma ética nos seus negócios. Mas, por favor, poupem-nos aos números dramáticos de pai adoptivo.

'SHOTS'

O vício do poder. Xanana vai ser primeiro-ministro de Timor-Leste, apesar de ter perdido as eleições.

Daniel Oliveira