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Daniel Oliveira

Não somos uma família

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

Nenhuma família pode gastar, ano após ano, mais do que ganha". É isto que se repete até à náusea, fazendo-se um paralelo absurdo entre orçamentos familiares e orçamentos dos Estados. A economia explicada ao povo e às criancinhas passa bem. Mas não faz sentido nenhum. Como explicou, para desmistificar esta infantil comparação, o economista pós-keynesiano Randall Wray, o governo federal dos EUA tem estado endividado desde 1776. Desde então houve apenas sete períodos de excedentes orçamentais e uma redução significativa da dívida, a que se seguiram sempre depressões. Como explica Wray, nenhuma família entra em depressão por causa de um excedente orçamental, o gasto excessivo em relação aos rendimentos da família não desvaloriza a moeda e não há nenhum chefe de família que consiga gastar creditando depósitos e reservas bancárias, ou emitindo dinheiro. As finanças familiares não têm nada a ver com as finanças públicas porque um Estado não é uma família. Ponto.

Depois da comparação infantil, os merceeiros que fazem a opinião económica em Portugal têm a solução condizente com o diagnóstico para pagarmos as nossas dívidas. Como não podemos gastar o que não temos vamos travar o investimento público. Ao contrário do que é ideia feita, foi exactamente isso que se fez na última década, na ânsia de reduzir o défice. O resultado está à vista: com o investimento privado retraído, os cortes no investimento público sacrificaram o crescimento. E a falta de crescimento cria dúvidas nos mercados em relação à nossa possibilidade de cumprir o pagamento da dívida pública, que, na verdade, não é especialmente elevada quando comparada com o resto da Europa (menor do que a francesa e apenas ligeiramente superior à alemã).

A pergunta que interessa fazer é esta: estando o mercado mais relevante para a nossa economia, o da Espanha, em crise, como queremos crescer? Se travamos o investimento público matamos uma das poucas soluções que nos restam para pôr as empresas a produzir. Aumenta o desemprego, aumentam as despesas em prestações sociais e reduzem-se as receitas fiscais. Recordo que os nossos problemas orçamentais (que existem) se deveram sobretudo à quebra de receita. E as soluções que nos querem vender acabarão por reduzi-la ainda mais. O remédio que os contabilistas que dominam o pensamento económico português nos oferecem é simples: se te estás a afogar, deixa-te ir ao fundo.

"Fantasia Lusitana"

Concentrado no período da Segunda Guerra, o filme de João Canijo revela, através de uma montagem de imagens de arquivo, o Portugal que o regime devolve aos portugueses e o Portugal visto pelos refugiados. Um com um orgulho triste e medíocre, os outros com estranheza exótica. Um país que se alimenta dos castelos do seu passado, satisfazendo-se com a fantasia ingénua da sua pequenez segura.

Sentimos que aquilo ainda somos nós. Quando, nos dias que correm, ouço tanta gente, com o mesmo ar beato, a propor como único desígnio nacional as contas em ordem e a disciplina do trabalho e da humildade, pressinto o tremer de voz do presidente do Conselho. Nenhum arrojo. Nenhuma revolta. Sempre resignação pequena e ordeira. E sinto que, tirando o sobressalto de rebeldia de há 36 anos, não chegámos realmente a mudar.

danieloliveira.lx@gmail.com

Texto publicado na edição do Expresso de 8 de Maio de 2010