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Expresso

Daniel Oliveira

Muito complicado

Seguindo a sugestão de um artigo que li na Internet, fiz este nteressante exercício: escrever, no Google News, em inglês, francês e alemão, "manifestação" e "Lisboa". Oito notícias sobre o protesto sindical de dia 18, em contraste com quase mil artigos sobre o resultado da cimeira, grande parte deles falando de "sucesso". Parece que se não houver violência 200 mil pessoas não chegam a ser notícia.Os eurojornalistas, que têm sobre a construção europeia o mesmo sentido crítico que os profissionais da 'Vida Soviética' emprestavam às suas prosas, incorporaram o espírito da coisa: a Europa é demasiado importante para ser deixada nas mãos dos europeus. Por isso, a opinião pública ou as organizações sociais são irrelevantes nesta matéria.

Seguindo esta linha, Luís Amado já explicou que este tratado é demasiado complicado para ser referendado. Vital Moreira foi mais claro: "Já experimentaram lê-lo? E acham que algum cidadão comum consegue passar da segunda página?" Sobre a União Europeia, os euro-entusiastas ainda dirão um dia uma coisa de semelhante à que ouvi de um amigo comunista, mais dotado de ironia do que é comum pelas suas bandas: "O socialismo era perfeito. O problema eram mesmo as pessoas".

Para variar, a vida

Acaba hoje o Doclisboa. Cerca de 30 mil bilhetes vendidos. Sobretudo para os filmes políticos. O Doclisboa foi apenas uma pequena sombra da impressionante produção de documentários actual. Não é difícil perceber porquê. De tanto nos querer entreter, o cinema "mainstream" de ficção aborrece. Infelizmente, a realidade parece ter-se tornado mais variada e surpreendente. Mas não é só o cinema. É o jornalismo. A fuga de leitores e espectadores da imprensa e da televisão para blogues e documentários resulta do mesmo cansaço: de tanto querer entreter, o jornalismo já só se consegue repetir.

Para se perceber o estado da arte vale a pena olhar para os Estados Unidos. E para o exemplo da Brave New Films, uma produtora dirigida por um ex-barão de Hollywood que se dedica a "documentários instantâneos" sobre a actualidade política. Num artigo publicado este mês na edição portuguesa do 'Le Monde Diplomatique' descreve-se o segredo: fazer muito barato e usar a Internet para promover e distribuir os filmes.

Em todo o mundo milhares de pessoas com uma câmara na mão e milhões de "bloggers" nos seus computadores mostram-nos uma realidade muitíssimo mais variada, profunda e contraditória do que encontramos nas salas de cinema e em frente à televisão. Seja para falar de política ou de qualquer outra coisa. Uns são excelentes outros são péssimos. Mas é nesta 'rede' que podemos hoje encontrar a mais impressionante resposta à ética do entretenimento. É cíclico: quando a anestesia parece geral há sempre uma reacção.

'SHOTS'

Europa. Em França, os imigrantes candidatos ao reagrupamento familiar terão de se sujeitar a testes de ADN. Na Suíça, um partido que tem como principal bandeira o combate aos imigrantes ganhou as eleições. No metropolitano de Barcelona, um "skinhead" bateu numa imigrante equatoriana perante a indiferença de todos.

Daniel Oliveira