Siga-nos

Perfil

Expresso

Daniel Oliveira

Demasiado pequeno

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

É bom que não se tente construir à volta de Saramago um consenso que nunca existiu. O empenhamento político teve um papel central na sua vida e na sua obra e isso paga-se com discórdia. Atreveu-se a reescrever a História já escrita pelos vencedores, fazendo dos carregadores de pedras de Mafra e dos camponeses alentejanos os seus principais atores. Atreveu-se a refazer, umas vezes com profundidade outras nem por isso, mitos e deuses. Foi severo com os seus contemporâneos. Por vezes até amargo.

À volta de cada um dos seus livros mais recentes nasceu quase sempre uma polémica. Por vezes estéril e pobre - foi, na minha opinião, os casos de "Caim" e do "Ensaio sobre a Lucidez" -, outras estimulante. Para o bem e para o mal, Saramago nunca esteve fora deste mundo. E isso causou incómodo. Não sendo consensual na vida, também não foi na morte. Só lhe fica bem.

Mas vale a pena perceber como os dois países da sua vida lidaram com a sua morte. Em Espanha, o presidente do Governo não se ficou pelas obrigações protocolares. Dedicou-lhe um belíssimo texto no "El País". Não foi o único. O católico conservador de direita Mariano Rajoy também deixou a sua mensagem elogiosa que foi para lá da mera formalidade. Em Lisboa, vários ministros espanhóis, incluindo a número dois do Governo, marcaram presença. Em Lanzarote, povo anónimo leu textos seus. Já em Portugal, o campo ideológico oposto a Saramago não esteve no seu funeral. Nem Passos Coelho nem Paulo Portas. Sócrates deixou para a ministra da tutela o elogio. Foram ditas frases de circunstância, mas na blogosfera e nas caixas de comentários dos jornais desaguaram insultos, ressentimentos e mesquinhas acusações.

Em Espanha, o homem polémico foi incorporado como fazendo parte da cultura espanhola. Em Portugal, foi linha de fronteira e renegado pela parte do país que se sentiu insultada pela sua criatividade. A forma como Espanha e Portugal lidam com o que é seu ajuda a explicar porque uma é uma potência cultural e o outro apenas uma nação cheia de talentos que acabam, mais tarde ou mais cedo, por partir ou viver próximo da indigência.

O mais grave é que o pior exemplo da nossa pequenez veio do chefe do Estado. José Saramago e Cavaco Silva nunca se admiraram um ao outro. Terá sido até por causa do cavaquismo que o escritor abandonou o país. Por isso, se o Presidente tivesse comparecido na homenagem a Saramago não faltaria quem o acusasse de hipocrisia. Mas as críticas só poriam em causa o homem. Deixariam intacta a instituição que ele representa. Ou seja, o que nele é relevante.

A justificação que Cavaco apresentou - não era amigo ou conhecido do escritor - e a verdadeira razão porque esteve ausente - não suportaria prestar homenagem a alguém que o enfrentou - são absurdas mas reveladoras. Absurdas, porque as funções de representação de um Presidente não são para os amigos. Reveladoras, porque mostram que temos como Presidente da República alguém que nunca consegue ser maior do que o cidadão Aníbal e do que o político Cavaco.

O Presidente da República, fosse quem fosse, nunca poderia faltar à última homenagem ao único prémio Nobel da Literatura de língua portuguesa. A um dos mais importantes escritores portugueses do século XX. Àquele que, com Pessoa, atingiu maior notoriedade internacional. Cavaco Silva mostrou que, nas suas funções de Estado, não consegue superar-se. E que o homem é demasiado pequeno para o lugar que ocupa.

danieloliveira.lx@gmail.com

Texto publicado na edição do Expresso de 26 de Junho de 2010