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Expresso

Daniel Oliveira

Delírios de Verão

Atacar uma cultura de milho transgénico de um agricultor é injusto porque é escolher o elo mais fraco. É desproporcionado porque opta por uma acção extrema quando não se tentou nenhuma outra via. É preguiçoso porque prefere a televisão à criação de um movimento ecológico sólido. E é estúpido porque envenena um debate que mal começou em Portugal. Por isso e porque estamos em Agosto, esta acção imbecil só podia ter um resultado: uma semana de imbecilidade nacional. A Marques Mendes, em campanha, só faltou pegar ele mesmo no bastão e ir em busca destes autênticos "cereal killers", como lhes chamaram na blogosfera. Pacheco Pereira comparou-os aos "skinheads", pondo a vida de imigrantes e maçarocas de milho ao mesmo nível, e vestiu a sua fatiota preferida: a de cabo-de-esquadra. Cavaco Silva, que há uns meses nos explicou que nada faria contra o facto de Alberto João Jardim se recusar a cumprir a lei do aborto, porque isso era um assunto para os tribunais, lembrou-se agora que é o garante do Estado de direito. Talvez com saudades do tempo em que era primeiro-ministro e em que se lidava com as manifestações à bastonada. E Vasco Graça Moura pediu a demissão de meio país. Mas Vasco Graça Moura é Vasco Graça Moura, devemos dar sempre o desconto. O que eu gostava mesmo é que toda esta indignação tivesse dado a cara quando foram abatidos ilegalmente 2600 sobreiros no que ficou conhecido como 'caso Portucale'. Só que aí a caça era graúda. Esta polémica de Verão teve pelo menos um mérito: finalmente a classe política uniu-se para condenar a destruição de um terreno agrícola no Algarve. Talvez faça escola.

Não compensa

Há professores com leucemia que morrem a dar aulas porque a burocracia não os deixa ir para a reforma. Há professores capazes, exemplares e com vontade de trabalhar que são mantidos em casa à força. Já por aí se escreveu sobre o inenarrável caso de Luísa Moniz. Mas nem assim o nó kafkiano a que está atada se desfaz. Esteve entre a vida e a morte duas vezes. Ficou, por causa da recuperação, um ano lectivo de baixa. Era directora da escola básica Luiza Neto Jorge, em Marvila. Sobre o trabalho que deixou boas memórias em alunos e pais os serviços só escreviam mais do que elogios. Mas quando regressou à escola para ocupar o cargo para o qual fora eleita, estava no seu lugar um colega. Luísa foi mandada para casa. A presidente do Conselho Executivo, seguramente especialista, dizia que, ao contrário do que afirmava o médico que a autorizara a regressar ao trabalho, ela não estava bem. Não estava bem da cabeça. Ao bom estilo estalinista, mandou-a para uma Junta Médica Psiquiátrica. Luísa, que além de competente tem todo o sentido da dignidade, recusou a humilhação e recorreu a um tribunal. Está há um ano sem trabalhar e a receber. Não tem nenhum problema psiquiátrico. É competente e isso é coisa que não compensa. Nas escolas portuguesas? Só se esforça quem for maluco.

'SHOTS'

Que importância tem isto ao pé de um hectare de milho? A Somague pagou 233 mil euros ao PSD. É a primeira vez que um financiamento ilegal por uma empresa a um partido fica provado.

Mil guerras que percam, não aprendem a lição. O candidato republicano Rudolph Giuliani está contra a criação de um estado palestiniano, porque será "promotor de terrorismo".

Daniel Oliveira