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Expresso

Daniel Oliveira

Ave Sanctus Pater

Acabou-se a musiqueta, as palmas e a guitarrada nas missas. O Papa quer canto gregoriano e mais latim, que isto dos fiéis perceberem o que se anda por ali a dizer não faz grande sentido. Poucas modernices na arquitectura, na pintura, na música e na escultura. Menos improvisação. Harmonia do rito, das vestes litúrgicas e da decoração. Tudo a condizer e em ordem para o rebanho não se baralhar. Tolerância zero para divorciados e nem pensar em misturadas com cristãos não-católico.

Mas o Sanctus Pater Benedictus XVI (eu cá cumpro as regras) quer, e perdoem-me o plebeísmo pouco canónico, sol na eira e chuva no nabal: que os políticos católicos legislem de acordo com a moral da Igreja. Esperando que não tenha de ser em latim, interrogo-me se, com as igrejas mais selectivas que clubes ingleses, ainda sobrarão políticos que saibam ao que devem obedecer. Não me interpretem mal. Eu acho tudo isto excelente. Só não esperava que fosse o Papa a fazer o trabalho sujo: fechar a Igreja num museu. A isso eu digo ámen.

Para acabar de vez com a cultura

Vale 0,4 por cento do orçamento e 0,1 por cento do PIB, dez vezes menos do que os países civilizados acham aceitável. Mas, mesmo assim, não há maneira da insignificante ministra da Cultura deixar de ser notícia. Mesmo como presidente de comissão liquidatária não consegue acertar uma. Cada despedimento segue o mesmo padrão: director competente, rumor de demissão, desmentido e confirmação com versão oposta à dos despedidos que parecem manter com o Ministério uma relação estritamente epistolar.

Os resultados estão à vista. Lisboa já pode dispensar o Parque Mayer. O Teatro Nacional Dona Maria II ocupa por direito o seu lugar. A ideia de um Teatro Nacional que se dedique a clássicos parece ser demasiado elitista. Prepara-se a fusão do São Carlos com a Companhia Nacional de Bailado, apesar dos maus resultados já experimentados. No cinema, os números são esmagadores. No tempo de Manuel Maria Carrilho produziam-se vinte filmes nacionais. Com os sucessivos ministros do PSD chegou-se aos 12. A ministra actual promete um recorde: sete. Sempre atrás da miragem de uma indústria que nunca existirá.

Quando finalmente houver mais funcionários no Ministério do que criadores no país, quando em busca de "novos públicos" se ficar sem público nenhum, quando o orçamento para a cultura chegar a zero e toda a programação cultural for entregue à TVI talvez José Sócrates acorde e demita este cataclismo que se instalou no Palácio da Ajuda. Pode ser que o primeiro-ministro ande distraído. Uma ajuda: num cantinho escondido do organigrama do Governo existe um Ministério falido que não rende votos. Ainda vai a tempo de nomear um ministro a sério para o dirigir. Agradecia-se que desta vez não fosse escolhido por sorteio.

"SHOTS"

Traumas de um conflito. O embaixador de Israel em El Salvador foi encontrado nu, amarrado e com acessórios sadomasoquistas numa rua da capital salvadorenha.

Reforcem a segurança dos vossos "e-mails". António Costa chegou à Internet.

Reincidência. Quando outro caso Paulo Pedroso se repetir o PS vai lamentar, como de costume, as leis que aprovou.

Daniel Oliveira