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Daniel Oliveira

Amigos e inimigos

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

Israel está progressivamente a deixar de ser um trunfo e a tornar-se um fardo para os Estados Unidos". Foi assim que o director da Mossad, Meir Dagan, resumiu a situação criada pelo assalto ilegal em águas internacionais a um barco turco. E o comentador israelita Sima Kadmon perguntou: "Como é que ficámos tão burros?" Resposta: protegido pelos EUA, Israel habituou-se à sua própria inimputabilidade. O que fez esta semana não é muito diferente de tantos outros crimes passados. A diferença é que o fez contra um barco turco. E isso muda tudo.

A vitória dos pós-islamistas do AKP na Turquia significou uma mudança radical da natureza daquele regime. A destruição do legado de ocidentalização autoritária de Ataturk passou pelo início de um longo processo ainda inacabado de democratização e desmilitarização (mas também de islamização) da política turca. Depois de uma falhada tentativa de aproximação à Europa - que a França e a Alemanha trataram de matar à nascença -, a Turquia, dirigida por religiosos moderados de centro-direita, parece estar cada vez mais a virar-se para os seus irmãos muçulmanos, com quem tem laços culturais e imperiais. Desde a assinatura de um acordo com o Irão para encontrar uma solução para a crise nuclear a uma crescente intervenção em questões políticas na região, tudo indica que se trata de um realinhamento estratégico. A Turquia quer liderar o Médio Oriente. Foi neste contexto que apoiou, discretamente, a frota humanitária a Gaza. Israel só veio ajudar: criou o incidente que colocou a Turquia no centro do furacão e que enterra definitivamente a aliança entre os dois países.

Se o realinhamento turco com os árabes, para os liderar, se confirmar, estamos perante uma boa notícia para o mundo: farão melhor papel do que Ahmadinejad. Mas é uma péssima notícia para Israel: a segunda maior potência militar da NATO é uma peça estratégica indispensável para os Estados Unidos. Claro que, por razões internas, os EUA nunca deixarão cair o 'fardo' israelita. Mas Israel pode vir mesmo a ter de começar a ceder. E isso seria uma novidade.

Como se tornaram tão burros? Por não terem amigos a sério. Gente que, em vez de aplaudir e saltar com eles, os avise quando se preparam para se atirar para um precipício. E agora, aos amigos errados juntou-se um inimigo poderoso.

Passado e futuro

Depois de avanços e recuos, ditos e desditos, o anúncio de apoio do PS a Manuel Alegre só pode ser visto como uma formalidade inconsequente. A confusão foi deliberada. A verdade é que José Sócrates prefere ter Cavaco em Belém. Sabe que Alegre lhe causaria muito mais problemas. E nisto foi acompanhado pelo sectarismo partidário, que prefere um perdedor alinhado a alguém que pense pela sua cabeça. À fome de Sócrates juntou-se a vontade de comer de Mário Soares. Por vingança pessoal, Soares convidou meio mundo para concorrer contra Alegre e mexeu todos os cordelinhos que pôde para boicotar a sua candidatura. Mas o PS está a cometer um erro histórico. Sabendo-se que Pedro Passos Coelho será o próximo primeiro-ministro, a reeleição de Cavaco é trágica para a esquerda.

Sócrates está preocupado com um futuro que não existe. Soares com um passado que não interessa. Cavaco Silva agradece.

danieloliveira.lx@gmail.com

Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Junho de 2010