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Expresso

Daniel Oliveira

A doce ambiguidade

Uma mulher deitada no chão é dominada por um homem, enquanto outros quatro observam a cena. É um anúncio da marca Dolce & Gabbana e causou choque e indignação. A Amnistia Internacional protestou e os sindicatos apelaram a um boicote. Uma apologia da violação, acusaram os mais irritados, uma mensagem ambígua, disseram os mais ponderados. A Dolce & Gabbana lamentou que não soubessem apreciar a arte. Mas é uma empresa e quer vender. Recuou. Tal como os cartoonistas dinamarqueses, a Dolce & Gabbana tinha todo o direito de usar estas imagens. Tal como os religiosos árabes, quem não gostou tinha todo o direito de organizar boicotes. Ficamos a saber o que nunca devemos esquecer quando falamos de outras culturas: todas as sociedades têm as suas heresias.

Agora o conteúdo. A teatralização da dominação (do homem sobre a mulher e, mais recentemente, da mulher sobre o homem, do homem sobre o homem e por aí adiante) faz parte do imaginário erótico. Não há erotismo correcto e aceitável e impor regras para a sua representação é infantilizar a sociedade. Se partirmos do princípio de que as pessoas não distinguem a violação da dominação consentida nunca lhes poderemos dizer nada sobre sexo. E condenar uma mensagem erótica por ser "ambígua" é condenar o erotismo.

Todo o poder aos militantes?

Se Ribeiro e Castro foi eleito através dos votos directos dos militantes do CDS é indiscutível que Paulo Portas tem o direito a exigir o mesmo. Mas vale a pena falar um pouco desta nova moda: a eleição directa dos líderes partidários. Parece correcto, mas não ajuda à prometida abertura dos partidos à sociedade, seja lá o que isso quiser dizer. Com a eleição directa os líderes ficam absolutamente dependentes dos militantes, que não representam a influência social do partido. Obriga a mais compromissos internos e dá a esse micromundo muito próprio que é o da militância partidária um poder sem moderação, que tem sido garantida por delegados a congressos. É mais democrático? Seguramente. Mas teríamos de supor que mais democracia interna nos partidos corresponde a mais democracia no país. É discutível.

Para saírem do autismo em que se encontram, os partidos têm de encontrar formas mais fluidas de organização. E as estritas regras democráticas, dependentes dos militantes, não ajudam. Dizer isto não é defender que os partidos devem ser liderados por déspotas esclarecidos. Até porque um partido que não pratica a democracia para dentro dificilmente a praticará para fora. Mas vale a pena ter cuidado: partidos que dão todo o poder aos militantes estão condenados a viver para os militantes. Querem mais democracia nos partidos? Então defendam primárias com o voto dos eleitores. Mas será viável?

"SHOTS"

Big Sócrates is watching you. O Governo quer que todas as forças policiais sejam comandadas por uma só pessoa e que toda a informação de segurança seja canalizada para o primeiro-ministro.

Uma lei pelos não-fumadores ou contra os fumadores? Se, como acontece na lei espanhola, cada bar ou restaurante puder decidir se é para fumadores ou não-fumadores, publicitando a sua escolha, não estarão os direitos e a liberdade de todos garantidos?

Daniel Oliveira