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Daniel Bessa

A verdade

Daniel Bessa (www.expresso.pt)

Trata-se de um tema muito difícil. Em abstracto é simples: gente de bem, e com ética, deve dizer sempre toda a verdade. Há também a questão da credibilidade pessoal, que podemos perder quando somos apanhados em inverdade. Mesmo assim: a verdade, toda, sempre? Depois, talvez não seja verdade que a verdade é só uma: há os factos e os observadores. E há, por vezes, interesses superiores, que podem aconselhar a não dizer toda a verdade. A verdade, toda, quando estou em guerra?

Não vendemos a Vivo, terá dito a administração da PT. Verdade? Talvez não. Vamos censurá-la por isso? Não serei eu a atirar a primeira pedra...

Usaremos a golden share para impedir a venda da Vivo, terá dado a entender o Governo português. Verdade? Talvez não. Fez bem em dizê-lo? Tenho as maiores dúvidas...

Se há área em que a relação com a verdade é particularmente complexa é a financeira. Há deveres de informação, em benefício de interesses que devem ser protegidos. Ninguém é obrigado a dizer a verdade restante, muito menos a enfatizá-la. Mas há momentos em que talvez deva dizê-la. Nos últimos meses, o financiamento exterior da banca portuguesa tem sido assegurado pelo BCE. Não é sustentável. Não haverá vitória, nem sossego, por maior que seja o sucesso no PEC, enquanto este problema não for também resolvido.

Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Junho de 2010