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Expresso

Daniel Amaral

Sarkozy: oportunidade ou ameaça?

Estávamos em plena campanha para as presidenciais. Nicolas Sarkozy e Ségolène Royal, em campos opostos e com estilos diferentes, assestavam baterias sobre um alvo comum: o Banco Central Europeu (BCE), diziam, estava a travar o crescimento da França. Sarkozy é hoje Presidente, desdobra-se em reuniões, e propõe-se interferir na habitual rigidez do sistema: as contas do défice, os limites da dívida, a paridade do euro, as taxas de juro... A Europa está confusa e expectante. E agora?

Comecemos pelo princípio. Quando os mentores de uma união europeia se decidiram pela criação do euro, os países interessados comprometeram-se a respeitar cinco critérios, dois dos quais ligados às finanças públicas: o défice e a dívida, que não deveriam exceder 3% e 60% do PIB, respectivamente. O grupo de aderentes concordou. E foi à luz destes princípios que nasceu a moeda única, em 1 de Janeiro de 1999. A França integrava esse grupo.

Diga-se desde já que, se o fim último era uma Europa homogénea, o controlo das finanças públicas fazia todo o sentido. O grupo teria de convergir para uma mesma estrutura. Apesar disso, o critério da dívida teria de esperar alguns anos, já que o cumprimento imediato era materialmente impossível. Eis o desafio que os 'Doze' se propuseram: adoptar uma disciplina férrea, em nome do que se acreditava ser um objectivo comum. Jogava-se a imagem dos países – e a sobrevivência da União.

Pois bem, que fez a França? Alguns anos após o início do euro, incumpriu o critério do défice. A seguir, incumpriu o critério da dívida. E, em ambos os casos, assobiou para o ar. Para a França, respeitar ou desrespeitar compromissos valia o mesmo. Mas a economia não perdoa e o desemprego atingiu um dos níveis mais altos de sempre. Chegara a hora de Sarkozy brilhar: em nome do "desenvolvimento", diz agora que não vai equilibrar as contas em 2010, como estava previsto, mas apenas em 2012. O BCE que se amanhe, mais o seu programa "estúpido"...

Homens como Sarkozy têm os seus seguidores. Mesmo em Portugal. É fácil perceber porquê. Um país que não se preocupe com o défice, tem mais dinheiro. Se baixar as taxas de juro, investe mais. E se, além disso, ainda desvalorizar a moeda, ganha quotas de mercado. Eis a trilogia sarkozyana: dinheiro, investimento, exportações. Não é esta a chave que abre as portas ao emprego, à riqueza e à satisfação pessoal? Quem rejeita este maná?

Pois. Há só um pequenino problema. Os défices geram dívidas, que custam dinheiro. As moedas obedecem aos políticos, mas preferem os mercados. As taxas de juro, se desajustadas, podem desencadear inflação. E a inflação é o primeiro passo para uma recessão económica. Mais importante do que isso: nos países civilizados, os bancos centrais são organismos independentes, ignoram as pressões que lhes colocam, e só eles respondem pelas condições monetárias e financeiras do mercado.

Sarkozy: oportunidade ou ameaça? Creio que nem uma coisa nem outra. Alguém há-de explicar ao Presidente da França que o BCE não é um brinquedo.

Rectificação

Na edição de 21/07/07, nesta coluna de Daniel do Amaral, sob o título 'Dançando nas Nuvens', no quadro publicado intitulado "A 'Flexigurança' em números", a coluna das unidades surgiu com uma gralha grave a que o autor foi alheio: em vez de mil milhões, apareceu apenas milhões. Erro que faz toda a diferença: por exemplo, o PIB português é de mais de 155 mil milhões de euros (em 2006) e não de 155,2 milhões, como se leu. Um 'desvio' de mil vezes.

Daniel Amaral