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Expresso

Daniel Amaral

O regresso da inflação

Leio num documento do Eurostat: a inflação na zona euro atingiu 3,1% em Novembro, sugerindo uma tendência anormalmente crescente. Como o objectivo para a zona continua a ser da ordem dos 2%, temos de concluir que algo não vai bem,

Mas o descontrolo dos preços costuma ocorrer em períodos de sobreaquecimento económico e baixo desemprego, exactamente o oposto do que está a suceder hoje. Eis um fenómeno novo que é necessário averiguar. Afinal, o que é que se passa?

Antes de mais, digamos que estas pressões inflacionistas não são de hoje. Há já vários anos que a inflação na Europa tem vindo a situar-se umas décimas acima do objectivo definido. Mas foi a queda do dólar - e a repercussão desta queda nos preços do petróleo - que desencadeou este movimento altista que está a ser difícil de controlar. Não vejo, de resto, que houvesse alternativa. Os países produtores de petróleo têm as suas moedas ligadas ao dólar e não queriam ser eles a pagar a factura do desvario americano.

Quando os preços sobem mais do que devem, conhece-se a receita: elevam-se as taxas de juro. E há razões para pensar que isso já deveria ter sido feito. Tome-se o exemplo europeu: com um crescimento do PIB em volume da ordem dos 2,6%, e um deflator implícito nunca inferior a 2,3%, o crescimento nominal vai situar-se em cerca de 5%. Mas o equilíbrio macroeconómico sugere que este valor esteja mais ou menos alinhado com as taxas de juro, o que actualmente não sucede. Então, uma de duas: ou se reduz num lado ou se acresce no outro.

O fenómeno explica-se à luz da teoria económica. Se, num determinado mercado, os preços sobem mais do que noutros, os salários tendem a acompanhar esta subida, fazendo os preços subir ainda mais. E destas subidas em espiral resulta um encarecimento de tal ordem nos produtos que eles deixam de ser competitivos. O movimento de sinal contrário torna-se a seguir inevitável: cai a produção, regride o investimento, dispara o desemprego. As taxas de juro têm o mérito de fazer um ajustamento mais rápido.

Dir-se-á que, não sendo a inflação um fenómeno recente, se percebe mal que os principais bancos centrais não tenham já actuado em conformidade, subindo os juros, em vez de os manter ou mesmo reduzir. Mas aqui o problema é outro. Em face da crise do "subprime" que agitou os Estados Unidos, e havendo que optar entre dois males, optou-se pelo mal menor: o declínio económico, numa conjuntura já de si desfavorável, pareceu bem mais importante do que o controlo da inflação. É duvidoso que tenham actuado bem.

Adivinha-se então uma nova crise? Creio que não. É verdade que a América sai um pouco abalada de todo este processo. Mas a economia mundial, impulsionada pelas economias emergentes, sobretudo a China, não abandonará o seu ritmo de crescimento de 5% ao ano, o mais alto desde os anos setenta. A crise será passageira e localizada, ainda que não deixe de afectar as pessoas. Imagino o futuro imediato: os salários vão ser controlados e as taxas de juro deverão voltar a subir.

Daniel Amaral