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Expresso

Daniel Amaral

A fúria dos preços

Perspectiva europeia: a economia está doente, o desemprego ameaça e a confiança desapareceu. O normal seria embaratecer o dinheiro para facilitar a retoma. Mas a inflação já atingiu os 3,3% e está a subir, pondo em risco um dos objectivos mais emblemáticos do Banco Central Europeu (BCE): andar à volta de 2%, sem exceder este valor. Resultado: a prioridade vai para o controlo da inflação e não para o estímulo ao crescimento. E as taxas de juro resistem aos 4% que já levam um ano.

Perspectiva americana: a inflação já atingiu os 3,9% e ameaça prosseguir, podendo vir a tornar-se incontrolável. O normal seria encarecer o dinheiro para evitar o pior. Mas a economia está de rastos, com um crescimento baixíssimo, e há mesmo quem advogue que já terá entrado em recessão. Resultado: a prioridade vai para o estímulo ao crescimento e não para o controlo dos preços. E a Reserva Federal (FED) não pára de mexer nas taxas de juro, que já caíram de 5,25% para 2% desde Agosto.

Por muito lamentável que tudo isto possa parecer, as coisas são o que são: o BCE e a FED não se entendem. E, sem a menor capacidade de intervenção, Portugal acaba por sofrer por tabela dos dois lados: sofre, primeiro, com as altas taxas de juro europeias e sofre, depois, com a "subprime" americana, que levou à falta de liquidez bancária e fez subir as taxas de juro ainda mais. Com o nível de endividamento que se conhece, a gestão financeira dos portugueses é hoje dramática.

Entretanto, a crise americana foi fazendo mossa. As sucessivas desvalorizações do dólar desesperaram os países produtores de petróleo, com moedas alinhadas. O aumento da procura de alguns países emergentes, como a China e a Índia, elevou a pressão. E os especuladores fizeram o resto. Num ápice, estava cozinhado o caldinho: aumento dos preços do petróleo, indução deste aumento nas matérias-primas, disparo dos preços nos produtos alimentares. E o espectro da fome, que já estava em alta, recrudesceu.

Com isto chegamos aos combustíveis. Nos últimos três anos, o preço do barril de petróleo passou de 60 para 120 dólares (+100%). Mas, no mesmo período, o dólar desvalorizou-se 25% face ao euro, pelo que aqueles 120 passam para 90 (+50%). Não conheço a estrutura de formação dos preços, mas arrisco um palpite: o efeito petróleo terá sido incorporado pelo dobro do valor correcto. E a loucura generalizou-se: impostos sobre impostos, ineficiência, ganância, caos. Portugal no seu melhor.

Se o mundo fosse perfeito, todos estes problemas se resolveriam: calculava-se o impacto global no nível de vida e corrigiam-se os salários em conformidade. Mas o mundo não é perfeito e há quem se aproveite disso. A dura realidade é esta: os acréscimos salariais foram calculados no pressuposto de uma inflação média de 2,1% e esta já atingiu os 2,6% e vai subir. Não pensem em correcções, que ninguém fará. Pensem no murro no estômago que é mais este decréscimo em termos reais.

E vão quatro: os juros, a alimentação, os combustíveis, os salários. Alguém se preocupa?

Daniel Amaral