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Segredos

Um segredo é uma questão de tempo

Agora lembrei-me de uma coisa que tenho de esquecer muito rapidamente porque é um segredo. Há sempre uma alegria a acompanhar um segredo. Quanto maior é o segredo, maior é a alegria que o acompanha. Mesmo que o segredo não valha nada, o que acontece com frequência, nada se compara à satisfação de o não revelar. Porque se o jurámos guardar, guardando-o melhoramos, no plano ético, a ideia que fazemos de nós mesmos. É, por isso, um bom e recompensador exercício em tempo de paz.

Guardar um segredo dá trabalho. Se repararem bem, são sempre, por natureza, os preguiçosos os mais inclinados a falar quando deviam estar calados, o que é fácil de entender porque, sendo passageiros indolentes do grande barco, sofrem de falta de assunto e não desdenham nenhuma oportunidade para exibir socialmente a ciência alheia já que a deles nada vale, valha-os Deus. Fica feito o aviso. Confiar um segredo a um preguiçoso tagarela é um erro infantil, embora as crianças guardem melhor segredos do que os adultos, certamente com vergonha de fraquejar. Como em tudo na vida, é preciso gostar. Gosto de segredos. E faço um esforço para que os segredos gostem de mim. Pode-se considerar uma relação muito igual, ou seja, um tesouro.

É tão triste aquele momento, por que todos já passámos, em que num círculo de amigos ou de conhecidos, rompe um idiota, um parasita, uma besta que anuncia: "Tenho um segredo para vos contar." Eu digo logo: "Então cale-se!" e, para mim, penso que dá Deus nozes a quem não tem dentes. E pérolas a porcos.

É evidente que o conceito de segredo implica o conceito da sua revelação, não menosprezando os segredos que morrem connosco e que são, normalmente, os melhores e os piores, embora não haja diferença a partir do momento em que uma pessoa fecha os olhos (o que não é segredo nenhum, pelo menos para os agnósticos). Há uma arte para tudo, até para revelar segredos. E não é artista quem quer, é artista quem pode. Quem tem um segredo e entende que chegou o momento de o expor, expondo-o nos seus termos, fica detentor de um imenso poder sobre o modo como os outros vão, para sempre, julgar a situação. Ou seja, perde-se a exclusividade, mas ganha-se no tribunal. É sempre uma questão de tempo.

Leonor Pinhão



Abaixo os segredos!

Por muito pequena que seja, é sempre útil conhecer cada peça do quebra-cabeças humano. Os segredos mais bem guardados nem sequer são mais importantes por causa disso. Mas quanto mais custam a guardar, maior é o desperdício de tempo e conhecimento. Para mais, os segredos criam em quem os guarda e avaramente partilha uma ilusão muito estúpida: a de saber alguma coisa, pelo simples facto de mais ninguém a saber.

Pedir segredo é sempre um acto de gula barata. Quer-se contar sem que se possa verificar se é verdade o que se conta. É tudo no saco (roto) e no papo (cheio). Quer-se bajular com uma simulação de cumplicidade. Faz-se um miserável contratozinho em que ambas as partes concedem uma à outra a máxima importância e responsabilidade cautelar.

Contar e guardar segredos é um bocadinho como aqueles autores que escrevem "só para mim" mas que se fartam de publicar. Neste mofo ciciado, os secretistas sentem-se superiores por deterem uma verdade - ou uma mentira, tanto faz - que os outros (julgam eles...) não tiveram o privilégio de conhecer. E assim se permitem daquela horrenda ignorância que os circunda: "Coitados! Nem desconfiam! Ó compadre, imagine só! Se eles soubessem..."

São um mau sinal, os segredos. Indicam uma cultura clandestina e atomizada em que pululam poderzinhos individuais e arbitrários. A própria palavra não podia ser mais foleira: o segredo da vida; dos rissóis; do sucesso; de não negar à partida o que se desconhece. Os segredos que não se contam a ninguém sempre têm alguma dignidade - a dignidade do medinho e da vergonha que se possa ter na cara. Mas também esses - por muito enfadonhos - haviam de ser contados e conhecidos. A ver se ficávamos com uma ideia um pouco menos tosca do que somos e da vida que levamos. Se partilhássemos a pouca informação que temos.

Se calhar, os únicos bons segredos são aqueles acerca de nós próprios que nem nós próprios sabemos.

Miguel Esteves Cardoso