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O turismo

Sem nada nas mãos

Todas as viagens têm uma componente aventureira, desde que sejam viagens de trabalho. Ou de negócios, tal como nos pedem para assinalar com uma cruzinha os serviços de fronteiras de países que ainda se preocupam em perguntar aos forasteiros que motivos os levam a querer entrar. Aprecio a pergunta e entendo-a como útil ainda que a resposta não sirva para nada. Por isso mesmo, assinalo sempre com a cruzinha o quadrado "negócios", sabendo que estou a mentir, porque não tenho negócios para tratar em parte nenhuma, e se os tivesse mais do que certo seria declarar-me como "turista", por causa da concorrência, pelo que mais me valeria passar despercebida.

Despercebida é como quem diz. Um turista é o mais detectável dos seres humanos. Lá vai ele com o seu guia na mão. E pela qualidade do guia - qualidade da impressão, número de fotografias e de mapas - se vê a qualidade do turista. Bem como a origem, pela língua em que está escrito. Um turista diz-nos tudo num único relance, o que é coisa espiritualmente pobre. Diz-nos de onde veio e, só por estar onde está, diz-nos o seu destino. Só nos falta dizer porquê, coisa que fará se alguém lhe perguntar, o que, mais cedo ou mais tarde, acaba sempre por acontecer.

Um turista não é um viajante. É um colector de impressões programadas, o paradigma do sangue-frio em movimento. Não tem a menor generosidade e revela uma relação vampiresca com o local que suga. Enfim, são pessoas que se vão a um sítio é porque esperam muito desse sítio. Isto é terrível, como conceito e como prática, não só no turismo propriamente dito como na própria vida em geral. Não se deve esperar muito de um sítio nem de coisa nenhuma. Devemos apenas esperar que qualquer coisa aconteça de bom, de invulgar, de extraordinário, independentemente do sítio, desde que estejamos lá, por acaso ou não.

Esperei uma vez três horas por um ferry para Buenos Aires numa espelunca em Colónia del Sacramento, do outro lado do Rio de La Plata, no Uruguai. Ao cabo de quinze minutos, sem nada nas mãos, sem esperar mais nada que não fosse o barco, de tão despercebida que me encontrava, senti até que fazia parte da mobília. E nunca fui tão feliz nos meus negócios.

É essa, também, a sua humanidade. E a nossa.

Leonor Pinhão



Venham mais bifes

No meu tempo toda a gente sabia que aqui em Portugal, fora uma rolha ou duas, vivíamos do dinheiro dos emigrantes e dos turistas. E estávamos agradecidos. Não é por acaso que o significado profundo de "para inglês ver" é "uma coisa melhor e mais bonita do que os portugueses, só por si, jamais mereceriam." Os ingleses propriamente ditos nem reparavam: éramos nós quem não tirava os olhos dessas obras. Era muito mais sério viver dos emigrantes e turistas do que, como depois aconteceu, da União Europeia.

Por alguma razão tem nome de companhia de seguros: é tudo muito bonito mas as apólices caducam. Antes gente de carne e osso a mandar ou a gastar dinheiro do que a frieza dos fundos comunitários. Sobretudo quando acabam, como é o caso. Também os emigrantes vão pelo mesmo caminho e ainda vai levar uns anos para trocá-los pelas receitas fiscais dos novos imigrantes. Mas os turistas - esses nunca falham, graças a Deus. Gosto quase tanto de turistas como de portugueses: até dos turistas portugueses consigo gostar desde que não se aproximem. Os nossos turistas são um património nacional. Temos uma variedade enorme deles e cada região tem os seus turistas típicos ali à mão.

Os ingleses da velha escola na Madeira; os neo-hippies alemães da Costa Vicentina; os galegos do Porto; os franceses do Bairro Alto... a fauna é riquíssima.

Falar com um turista é visitar brevemente um país estrangeiro. É uma oportunidade de praticar uma boa acção sem perigo de nos chatearem mais por causa disso. É o dom de poder ver Portugal como se também nós tivéssemos acabado de aterrar. É tirar um mini-curso grátis de línguas (com lavagem de ouvidos da língua portuguesa incluído). É um "clip vivant" do canal Discovery. E é, em geral, uma necessidade cosmopolita sem a qual nenhuma civilização minimamente decente seria possível. Excepto, talvez, no centro de Albufeira onde o contacto é mais do género extra-terrestre. Os turistas - no qual incluo tudo o que nos têm dado as bifas e os bifos (que também existem, por muito que as mulheres portugueses procurem abafá-lo) - não só ajudam a pagar este caríssimo país, como são, eles próprios, parte dele. Uma das mais giras e, sem dúvida, a mais barata. (Nós é que estragamos isto tudo.) Que sejam sempre bem-vindos, bem-recebidos e bem-tornados.

Miguel Esteves Cardoso