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O almoço

A mesa treme e lá vou eu

"Meu Deus, um tremor de terra!" E levantam-se todos em alvoroço. É a minha maneira de acabar com uma coisa com a qual não me identifico e que me enerva. Explicando melhor. Não tenho cultura de café. Nunca fui capaz de pertencer a nenhuma tertúlia porque não consigo estar sentada à mesa mais do que o tempo útil de engolir a bica e de passar os olhos pelas primeiras páginas dos jornais. Se o Café Londres, na Praça de Londres, não tivesse fechado para dar lugar a uma instituição bancária, talvez eu me tivesse formado porque era o único café realmente suportável para uma pessoa estar sentada. Tinha uma galeria superior, com vista para plateia e, nem havendo palco nem espectáculo, havia um ponto de vista privilegiado sobre a clientela. E aquilo é que era estudar. O meu limite é o tremor de terra. É uma técnica intuitiva. Funciona às mil maravilhas. Começa pela perna direita assim que o limite da paciência se esgota. "Estão a dar pelo tremor de terra?", perguntam. Tenho pena e sou franca: "Não é um tremor de terra, é a minha perna a tremer." E treme, treme com se fosse uma máquina regulada sabe-se lá por que desígnio mecânico. O chão treme, a mesa treme, a terra treme e sou sempre eu e lá vou eu. "Bom, adeus, até à próxima", e despeço-me. Posso levantar-me. Às refeições, é pior. Um batido de proteínas é uma coisa maravilhosa porque se bebe de pé e a andar. Uma refeição completa, à mesa, é uma tortura. São horas naquilo. Gostava que um dia alguém, de preferência com talento, me explicasse o que é o prazer de estar à mesa. As mesas, na minha opinião, servem (e bem) para trabalhar e (lindamente) para dançar quando a ocasião se proporciona, o que é raro e não menos inestimável. Sempre que há um tremor de terra, as pessoas que estão comigo, dizem-me: "És tu, não és?" E eu digo que sim e não há pânico. Ainda no mês passado aconteceu. E só perceberam quando viram as notícias na televisão. Do que eu gosto é de balcões. A minha ideia de Paraíso é um imenso balcão, um serviço atencioso e uma ementa frugal. E sossego. Ao balcão, é um sossego: quatro são uma multidão. Ou não é verdade?

Leonor Pinhão



Deixa-te estar

TENHO uma ambição antiga que nunca consegui cumprir. Até nem é difícil: é sentar-me à mesa para almoçar com amigos, ir comendo, conversando e silenciando e só levantar-me doze horas depois, absolutamente comido, conversado e silenciado. Ficar à mesa muito para além da refeição - ao ponto de nos sujeitarmos ao vaivém dos apetites, petiscando agora e depois dali a um bocado - tira a urgência à alimentação. Transcende-se a necessidade nutritiva, mas, ao mesmo tempo, celebra-se o que ela tem de mais bonito, que é juntar pessoas à volta de uma mesa e pô-las a estar e a falar de uma maneira que doutro modo não estariam ou falariam. Nem pensar naquela aberração da refeição ser "uma desculpa" para o convívio e para o raio que o parta. Não! A refeição tem de ser excelente por si - tão deliciosa que faria estacionar horas e horas àquela mesa uma única pessoa, mesmo que para isso tivesse de deixar dezenas de amigos à espera dela para almoçar. Comer depressa é uma selvajaria, porque lembra ruidosamente a utilidade básica da alimentação. Os portugueses não-alentejanos são um pouco rápidos e sôfregos nesse aspecto. Reflectirá, com certeza, um terror ancestral que outro predador venha abocar a carcaça que se tem entredentes, mas não deixa de ser anacrónico e repugnante. De qualquer modo, é escusado, porque, para ficar à mesa o dia inteiro, primeiro são necessárias horas de viagem e atrasos imperdoáveis, pelo que a fome acumulada faz com que se ataque o recém-chegado cabrito assado com toda a voragem paleolítica que se quiser. Depois disso, com a barriga cheia, dá para almoçar mais cinquenta ou sessenta vezes, à passarinho, picando aqui e ali: mal se abre uma nesga de fominha, preenche-se a caprichosa com concisão e pontaria. Imagino que nestes almoços saibam bem os silêncios prolongados - intervalos entre algazarras e segredos - e que obedeçam a um ritmo profundo que tem tanto a ver com a digestão como com a civilização. Algum dia hei-de saber. Mas onde estão os amigos?

Onde estão esses dias?

Miguel Esteves Cardoso