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Da governação

Hora a hora, Deus melhora

Não há citação literária mais irritante do que a da autoria do senhor Lampedusa: "É preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma." Não é coisa que se diga, muito menos é coisa que se pense. É um "must" reaccionaríssimo, uma desculpa para as derrotas, um convite à passividade e à desresponsabilização. Nem sei como há pessoas que sabem de cor uma anormalidade destas. A frase nem começa mal: "É preciso que alguma coisa mude." Melhor seria, no entanto: "É preciso que muita coisa mude." O "para que tudo fique na mesma (como a lesma)" é que dá cabo dos nervos. Há um provérbio popular português que funciona muito bem como antítese do estado mental anteriormente descrito: "Hora a hora, Deus melhora." Isto sim, é amar o movimento e o progresso. Deus não se melhora a si próprio (Deus não está doente), Deus melhora os homens pondo-lhes à disposição, generosamente, uma variedade infinita de soluções. Se escolherem mal, enfim, o problema já não é de Deus. É o que costuma acontecer quando há eleições. Normalmente, há eleições de quatro em quatro anos. Devia haver de dois em dois para o governo e de seis em seis meses para as câmaras municipais. Se o mundo é composto de mudança, quanto mais mudarem os ministros e os autarcas melhor será o mundo. O aliciante não está na novidade da novidade, mas nas "novas qualidades", um conceito nómada com o qual muito me identifico. E isto é que é ser optimista em movimento. Também gosto de mudanças imperceptíveis que nos fazem sentir subitamente despertos quando passam a perceptíveis, como é o caso dos programas com público em estúdio transmitidos pela RTP Memória. Chamo a vossa atenção, se é que já não deram por isso, para o facto de até 1985 entre o público em estúdio não haver uma percentagem de mulheres louras superior a 3%. Em pouco mais de vinte anos houve uma revolução capilar em Portugal. Talvez mesmo uma conspiração capilar porque, actualmente, a percentagem de mulheres louras entre o público em estúdio cifra-se nos 91%. Que o mundo continue, assim, a mudar. Que acordemos diferentes todas as manhãs. E os ministros também.

Leonor Pinhão



A minha pulsão salazarista

Salazar esperou que eu celebrasse os meus cruciais 15 anos de vida, morrendo dois dias depois. Terá sido amabilidade ou esperteza do velho tratante?? Não é incolumemente que se atinge a puberdade sob o férreo punho fascista. E a verdade é que fiquei salazarista em mais de uma coisa. Custa-me, por exemplo, ver Tony Blair juntar os tarecos. Acho tremenda a ingratidão de quem exfolia a pele das mãos, tal é a ganância de vê-lo pelas costas. Percebe-se que o público, frívolo e volúvel como é, queira caras novas no governo - mas depois olha-se para a cara de Gordon Brown e não se percebe porquê.

Governar é difícil e chato. Leva muito tempo a fazer alguma coisa de jeito. E, no entanto, o método actual é correr com os governos mal começam a habituar-se ao país e a governar. Mas alguém acredita na estafada mentira da "transmissão dos dossiês"? Essa ficção de simplicidade apenas serve para enganar não tanto o povo como os desgraçados que aceitaram ser ministros dum novo governo. Mesmo nos limites extremos do "kitsch" de metropolitano, não há espectáculo mais compungente do que o rosto iludido de um novo governante, todo ele ruborizado de esperanças e iniciativas; os olhos pontinhos negros de ambição concentrada; os cabelos ligeiramente levantados pela expectativa eléctrica da marca que vai deixar e das avenidas fontes pereiras de melo que se erigirão para mais tarde recordá-lo. É cruel. É um desperdício de recursos. É como mudarmos de médico de quatro em quatro anos. A governação é um serviço que requer muita experiência e as frescuras necessárias - ideias novas, carinhas frescas, mascotes horríveis - podem sempre ser recrutadas à medida das necessidades. Claro que quando Blair foi eleito temi o pior e, como é castigo de quem escreve nos jornais, espalhei-me ao comprido - com previsões pormenorizadas - para todo o sempre. Admito que, se fôssemos pela minha ordem de ideias, o Reino Unido continuaria até hoje com John Major à frente. Isso parece retirar alguma força ao meu argumento, concordo. É a minha sina. O tempo vem sempre tirar-me a razão. E quem dá e tira que vá para o inferno.

Miguel Esteves Cardoso