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50 anos

O alcance dramático

Em momentos de fraqueza, já dei por mim a orgulhar-me, perante estrangeiros, da palavra "saudade" não ser traduzível em nenhuma outra língua. De todas as vezes que aconteceu, e não foram assim tantas, uma ou duas, no máximo, recuperei rapidamente o domínio pleno do bom senso e, envergonhadamente, mudei de assunto com uma rapidez pouco nossa. A vanglória de um sentimento dissolvente é coisa de uma autocomplacência detestável.

Todas as línguas têm palavras intraduzíveis e bem menos parvas. Na inglesa, por exemplo, há a palavra "kind" que não tem correspondente directo em português, por muitas voltas que demos. Nem "gentil" nem "cortês" nem "polido" se equiparam ao fulgor simples de "kind".

Não é que goste muito do filme "Tea and Simpathy", mas a minha vida mudou desde a primeira vez que vi Deborah Kerr, no relativo esplendor dos seus 50 anos, a debitar a frase fatal para o rapaz da contracena: "Years from now, when you talk about this, and you will, please be kind." Como é que se traduz uma pérola de sabedoria como esta? "Daqui a anos, quando contares isto, e tu vais contar, por favor sê gentil." Sê gentil, sê polido, sê cortês. Se o "sê" já é mau, do resto então nem se fala.



Uma pessoa pode passar uma vida inteira a tentar traduzir uma metáfora como esta. E nunca vai conseguir. Não é que nos falte gramática ou vocabulário ou imaginação, o que nos faz falta é dimensão. Orgulho-me de ter atingido, à primeira visão do filme, e ainda não tinha vinte anos, o alcance dramático da questão. E lembro-me de ter pensado e desejado, e sinceramente muito, nunca chegar aos 50 anos. Nesse sentido, juro, fiz tudo o que me era possível. Em vão, desconfio sempre que olho para o calendário.



Na Idade Média, onde é que eu que já ia? E no século XIX, que hipóteses teria tido de sobreviver àquela peritonite que se me declarou aos 34 anos, uma idade tão bonita? O avanço da ciência obriga-me, assim, a descer pela escada abaixo e a chamar a isso progresso. E a chegar a casa, depois das luzes e do barulho, e a encontrar, no fundo de um cesto os meus 50 anos, sensatamente reanimados pela agitação do mundo. "Be kind."

Leonor Pinhão



Cinquenta por cento

Noutras línguas menos expressivas, as pessoas têm aniversários e "dias de nascimento". Mas em português reconhece-se o trabalho intenso de manufactura e as diuturnidades que se acumularam: fazemos anos, como quem está na cadeia e continua vivo.



Quando dizemos "fiz cinquenta anos" aquilo que estamos realmente a dizer é que sobrevivemos há cinquenta anos. Ninguém os fez por nós nem eles se fizeram a eles próprios. Não, fomos nós que os fizemos, dia a dia, hora a hora, contra todas as forças da morte.



Há menos de um século, a média de anos de vida era abaixo dos 50. Tudo indica que o corpo humano não foi concebido para mais - pelo menos se sucumbir a umas poucas tentações sem as quais a vida se pareceria tanto com a morte que, em chegando a hora, é pouco provável que se desse pela diferença.



As pessoas não gostam de fazer anos porque se sentem "velhas" ou, para sermos sinceros, mais perto da morte. Mas isso é ver tudo ao contrário. O que estão é mais longe do dia do nascimento - uma ocasião sempre traumática. O que deve marcar os aniversários não é a óbvia consciência de estarem velhas mas o facto maravilhoso de estarem vivas.



Também os números de anos são fetichizados, como se houvesse idades que custam mais. Quando são todas caríssimas. Para uns é dúzia e meia. Para outros, o equivalente a não ter febre (menos de 37). É absurdo. Só quem não se lembra da angústia de ser novo é que pode dar-se ao luxo de perder tempo com a angústia de estar velho. Viver angustia. A angústia é o combustível da vida. Há melhor passatempo humano do que a preocupação?



Fisicamente, a decadência começa aos dezoito anos. Mas, lá está, se os primeiros dezoito anos e acnes são o oposto da decadência, os pobres diabos em plena adolescência que fiquem com essa gloriosa ascensão. Isto é, se não estivessem a esgatanhar-se para sair de lá.



Por alguma razão, desde pequeninos o nosso primeiro instinto é querer brincar com os meninos mais velhos e desprezar os mais novos. E o que a idade ensina, ensina à custa do que esquece. A verdade é que tanto faz, desde que se esteja vivo e não se pense muito nisso.



Afinal, fazer cinquenta anos é como ter uma sala cheia de dez meninos de cinco anos.

Miguel Esteves Cardoso