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Expresso

Joviana Benedito

CD para Angélica

Angélica estava feliz nessa noite. Tudo estava perfeito. O jantar fora requintado, o ambiente luxuoso e romântico. João presenteara-a com um braçado de rosas cor-de-rosa. Dançavam enlevados.

Sentiam os corpos, trocavam olhares, abraçavam-se. Ela olhava-o com ternura e encostava-se ao seu ombro para sentir a sua pele quente e doce. Ele recebia o contacto e olhava-a longa e longinquamente como que a prendê-la para sempre. Ela apertava-o contra si com carinho, segurava-lhe a mão e vivia aquele momento. João beijou-a e todo o seu corpo vibrou. Pela sua mente começaram então a desfilar as imagens inesquecíveis de tantos momentos de convivência amorosa com ele durante três anos.

Encontraram-se num clube de amizade na Internet. A fase virtual foi vivida intensa e progressivamente com e-mails, conversas diárias no Messenger, telefonemas e SMS's contínuas.

- Angélica, aceitas jantar comigo?

- Aceito...

Foi aqui neste hotel. Lembra-se que as pernas lhe tremeram. Está ainda a ver o João a dirigir-se para ela sorridente com um ramo de rosas vermelhas na mão, cinquenta... no dia dos seus cinquenta anos,  entregar-lhas e dizer:

- Estás linda! Gosto de ti. Quero-te!

Lembra-se que se sentiu corar, que baixou os olhos e depois os levantou para lhe responder, olhos nos olhos:

- Obrigada. Adoro-te! Também te quero!

Está ainda a saborear os beijos, os abraços e todo o carinho e sensualidade que os uniu. Está ainda a lembrar-se daquela vez que foram ver o pôr-do-sol no Cabo da Roca. Ela com frio e os cabelos ao vento e ele agarrado a ela e a dizer-lhe:

- Fecha os olhos, ouve e sente comigo a voz das ondas, cada uma delas traz um recado. Esta agora segredou-me "João, ensina a Angélica a escutar-me. Diz-lhe que há vida para lá do seu rigor científico."

A música parou.

Já no quarto agarrou-a pela cintura e levou-a à janela para admirar a cidade vestida das cores nocturnas. Calados e abraçados usufruíram este momento. João tinha uma sensibilidade rara. Fazia silêncio dentro de si para que os sentidos lhe trouxessem as sensações que aprisionava e vivia com a imaginação: uma cor, um som, o cheiro de uma flor, o gosto de um beijo, ou o contacto das mãos dadas.

Ela aprendeu a olhar e a sentir todas as maravilhas que a vida, em cada dia, vai estendendo à sua passagem.

À despedida, João entregou-lhe um CD com a indicação de o ouvir sozinha. Ouviu:

 "Angélica, vivemos plenamente o possível. Acabou...por mim e por ti."

Nikita ouviu Angélica e disse-lhe:

- Saber porquê de que te serviria?!

Joviana Benedito

Profª. aposentada do Ensino Sec. e autora