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Expresso

Clara Ferreira Alves

Vernáculos e meio chatos

Clara Ferreira Alves

Clara Ferreira Alves

Escritora e Jornalista

O Brasil é um lugar muito perigoso. Perigoso não por causa de bandido dando tiro na favela ou de assalto e arrastão. Perigoso por causa da língua. Do modo redondo e rotundo, aberto e gargalhado, cantado e rolado como a língua portuguesa é falada aqui.

Pergunto-me quanto tempo duraria numa cidade como o Rio (que faz no dia em que escrevo 444 anos, com festa e bolo de aniversário de 4,44 metros oferecido no Cristo Redentor) o meu português clássico, aprumado e cheio de regras e consoantes mudas e cês cedilhados, o nosso belo e excelso português engravatado, bebido e comido em Eça, Cesário, Pessoa e O'Neill. Ou noutros, os autores e livros que definem a língua que falamos e escrevemos. O pior é que essa bela herança chega ao Brasil e se desata como um corsete; é como quem rebenta com os colchetes e abre as fitas e fivelas e desaperta os nós e respira fundo. A oralidade é o diabo.

Começo por abrir as vogais como quem vai abrindo caixinhas chinesas e em breve adiro ao domínio absoluto da vogal sobre a consoante. Absoluto, por exemplo, que em português de Portugal é uma palavra absolutamente dependente da consoante, aquele b vincado, aquele s sibilado, aquele t fechado, aqui vira (vira é fica), aqui vira uma palavra absolutamente livre e absolvida do pecado da boca franzida na pronúncia. Isto é um perigo, rapidamente a língua de Portugal vai embora e se deixa seduzir e substituir pela língua do Brasil, que sendo portuguesa é tão brasileira como o Carnaval. Eu acho que é o calor dos trópicos que faz abrir as vogais desbragadas e adoçar as arestas dos verbos. A língua solta-se do mesmo modo que a pessoa se solta.

Eu, por exemplo, depois de jurar na ressaca de um Carnaval em Salvador e de eternas horas a ver desfilar trios eléctricos (elétricos) que não voltava a pôr o pé num Carnaval, dei por mim a sambar com a velhinha escola da Mangueira, que encenou um enredo alusivo à história do povo brasileiro e à miscigenação, em homenagem ao grande Darcy Ribeiro. Enredo onde avultavam referências a portugueses. Nas outras escolas de samba, quase sempre existia uma referência a Portugal. Nós, esse povo triste e meio chato, inventor do fado, da queixa e do murmúrio, da dor e da saudade (e do Carnaval de Torres, apogeu da depressão contemporânea). Nós, os portugueses. Autores originais da língua. Os mesmos que deram à luz esta gente doida que abre as vogais e a cabeça e rebenta de folia. Que ironia. O génio português está por aí algures, nessa miscigenação. O Darcy é que sabia. O Brasil é muito perigoso, porque o português vira alegre. Crioulo. Índio. Mulato.

Ao cabo de dias de furiosa resistência a palavras como estrogonofe e mocotó, rolado e batuca, grana e saca-trapo, enredo e maluquice, sambista e balconista, cachê e batizado, laquês e paetês, bagunça e bagaceira, prêmio e boêmio, curtido e planejado, papo e cachorro, paquera e rabada (uma comida), bebê e termômetro, sujeito grosso e criador de caso, tomar um porre e pegar um bode (danados os dois), a gente acaba a abrir (abrindo) as vogais e a deixar (deixando) de pegar no vocabulário com pinças, arrastando as sílabas das frases na pronúncia brasileira.

O mesmo se passa com o Acordo Ortográfico. No princípio resisti, com algumas das razões apontadas pelos resistentes ao Acordo, razões misturadas com a resistência à imposição no território fluido das línguas e respectivas grafias. Nenhum Acordo seria perfeito e agradaria a todos os falantes e utilizadores da língua portuguesa. Com o tempo e a computação, o domínio da linguagem escrita e falada em mensagem de computador e simplificada pelos outlets digitais e electrónicos, a uniformização da grafia só pode beneficiar a língua e promover o seu prestígio e divulgação, facilitando as relações da nossa língua comum com as línguas mais usadas e faladas. Sou a favor do Acordo. Com a ressalva de que entendo a violência inicial em passar de óptimo a ótimo e de baptista a batista, ficando o português de Portugal um pouco sob a alçada do português do Brasil.

E nem podia ser diferente, dada a diferença de escala. Eles são quase 190 milhões, fora as reverberações do português falado em África ou nas comunidades de emigrantes. Nos resíduos de Macau e Timor. O Acordo não é óptimo. Talvez seja ótimo, e a ele nos habituaremos, sobretudo os escritores, quem mais sofre com a violência do clássico despindo a gravata e o colete. O Brasil arrasta-nos. O perigo verdadeiro é o de chegar aqui e ficar pronunciando gerúndios com sotaque de Chico e Caetano, Vinicius e Jobim. Fora daqui, o nosso português fica como é. Bonito, às vezes um pouco triste, um pouco chato (basta ver um congresso de partido político). Às vezes picuinhas. Vernáculo. Encovado. E agora vou subir no Corcovado.