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Expresso

Clara Ferreira Alves

Uma coisa de plasmar

Resolvi visitar um desses supermercados livreiros, tecnológicos e informáticos que vendem de tudo, desde o último Le Carré a uma mala para computador. Dirigi-me ao sector das televisões e comecei a tentar perceber a diferença entre um LCD e outro LCD.

Dantes chamava a estes televisores plasmas. Um dia, fui gentilmente esclarecida por um empregado versado no tema que estava enganada, o plasma era outra coisa, e por sinal uma coisa bastante mais cara. Nunca cheguei a perceber porquê, visto que a imagem que o dito plasma plasmava era igualzinha à do dito LCD, embora o meu informador fosse apontando as variáveis do problema. Este tem XPTO e o outro tem XPTA, e eu, pasmada, ia dizendo que sim com a cabeça.

No final, soletrei a boa frase do leigo: a imagem destas televisões é óptima, muito melhor que a do meu velho aparelho, arranje-me uma assim, não muito cara, visto que há diferenças de preço brutais. Ele arranjou e o contrato estava quase feito quando, com remorsos, o circunspecto perito avisou: em casa não vai ser assim. Como não vai ser assim? Não vai ser assim porque aquilo que está a ver é imagem em alta definição e a imagem em alta definição só chega quando chegar a televisão digital terrestre.

Então por que é que vocês têm esta imagem tão boa? Porque esta imagem é recebida directamente do satélite e provém dos canais que já emitem em alta definição. E se eu me ligar ao satélite? Não pode, para isso tem que ter um sistema de comunicações em casa que tenha canais em alta definição que ainda são muito poucos e a PT... etc. Desisti, agradeci, mandei desembrulhar o meu presente de Natal.

Estávamos no Natal, no Natal as pessoas cedem ao impulso irresistível de comprar televisores. Deve ser uma coisa religiosa. Resolvi esperar pela alta definição mais a tal televisão digital terrestre. Cheguei e casa e olhei para o meu fiel televisor com estima e culpa. Coitado, ele fazia o que podia e servia-me com lealdade. Os anos passaram e os famosos LCD baixaram o preço para níveis razoáveis. Os plasmas não.

Vá-se lá saber porquê. Marcas apresentam séries infinitas de televisores com variações ínfimas de preço, exactamente com as mesmas funções. O mundo do consumo tecnológico é um mundo admirável que assenta na ignorância e credulidade. Quanto mais funções melhor. Sendo que nunca encontrei uma criatura, excepto adolescentes de polegar oponível hipertrofiado em PlayStation, que soubesse programar um temporizador de vídeo.

A minha atitude em relação a estes consumos é do tipo Scrooge, quanto menos gastar melhor. E o velho televisor lá anda, apto e funcional, feio e baço. A ideia de ter de ter um "bonito", escapa-me. O vídeo foi substituído pelo DVD, e o DVD e o televisor deram-se bem apesar de ser avisada que a relação poderia ser tempestuosa.

Nunca uso o DVD. A pressão do LCD tem aumentado, as campanhas sucedem-se umas às outras e no supermercado as pessoas faziam fila para inquirir junto das autoridades competentes a diferença entre XPTO e XPTA. Empregados embrulhavam e desembrulhavam aparelhos, lutavam contra a esferovite, enquanto uma parede gigante era ocupada por enormes ecrãs de marcas orientais que vomitavam imagens de uma intensidade incandescente.

A televisão digital é outra coisa. A não ser que nos liguemos ao tal satélite que emite em alta definição e gastemos o resto da existência a ver documentários sobre a natureza e a vida na selva, não é para nós. Ao cabo de muita indecisão, escolhi um aparelho exactamente igual a outro que custava mais 200 euros. E consegui fisgar um destes empregados ocupados que descodificam a oferta tecnológica. Mandei embrulhar e já estava na caixa quando ele me avisou, como o outro. Olhe que este não vai dar para a televisão digital. Não vai dar? Como não vai dar? Não vai dar porque não é Full-HD. É só HD-Ready. E HD-Ready, se bem entendo, não está pronto para a alta definição? Não, só o Full-HD. É mais caro.

Mas por que é que se chama HD-Ready se não está ready? Ele sorriu misteriosamente. Desesperada, pedi uma televisão em que pudesse ver uns filmes em alta definição. Ele sorriu mais e disse, ah, então tem de comprar o formato Blu-Ray. O formato Blue quê? Blu-Ray. Tem de comprar um Full-HD, que é melhor, com um leitor de Blu-Ray e quando quiser ver vídeos tem de comprar ou alugar Blu-Ray. Então o meu leitor não serve? Não serve, tem de ser tudo Blu-Ray. E Full-HD, que é melhor. O Blu-Ray, adivinham, era mais caro. Raio azul vê-se logo que é mais caro.

E os meus filmes que não estão em Blu-Ray? Não pode ver, daqui para a frente só Blu-Ray, que é o futuro, o formato da próxima geração. Donde, tinha de deitar fora a televisão, o leitor de DVD, os filmes e todo o meu arquivo. Não estou Ready para isto. Agradeci muito e mandei desembrulhar. Vou esperar junto do meu fiel televisor pela futura geração, a que sucederá ao Blu-Ray, que, francamente, já considero obsoleto.

Nestas coisas, convém ter visão.