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Expresso

Clara Ferreira Alves

Um gesto obsceno

A OBSCENIDADE tem muitas formas. Esta é uma delas: "Marco Aurélio Garcia, assessor para os Assuntos Internacionais, festejou com um gesto obsceno com as mãos" a notícia de que o Airbus 320 que se incendiou no aeroporto de Congonhas estava com um auxiliar de travagem desligado quando saiu da pista e chocou com o hangar cheio de combustível. A notícia veio na "Folha de São Paulo" e, não sendo uma notícia recente, os mortos ainda estão mornos nos caixões. Alguns estão por identificar. Parece que o Presidente Lula pôs esta gente a andar, o dito assessor e os que celebraram a morte de 200 pessoas. mas a atitude reflecte o que hoje se convencionou chamar spinning e que não passa da mais abjecta e desavergonhada forma de defesa do interesse político pessoal e da ocupação e manutenção do poder acima de todos os outros interesses.

Sabia-se que Congonhas não é considerado um modelo de segurança e que as pistas são perigosas e derrapantes com a chuva. Pensou-se, quando o desastre aconteceu, que era evitável e que a morte daquela gente, que vimos a arder em directo pela televisão, era dolorosa e inútil. Lula e o Governo foram moralmente responsabilizados pelo homicídio por negligência num dos aeroportos mais concorridos da América do Sul. O aeroporto continua tal como era, com riscos de hidroplanagem, com a pista derrapante e remendada e sem ranhuras para escoamento de águas em caso de inundação. mas, ao saber da existência da avaria, o Planalto resolveu festejar com um gesto obsceno celebrando a própria sobrevivência ao desastre. Custa a entender o grau de desumanização a que é necessário chegar, em política, para isto acontecer. Spinners em acção. E de esquerda.

Outros exemplos obscenos, não tão extremos como este, vêm à memória. Basta ler o livro de Alastair Campbell, o spinner-mor de Tony Blair, para perceber a desfaçatez das criaturas que se dedicam a servir um líder, ocultar-lhe os pecados e pecadilhos, ajeitar-lhe a gravata e engraxar-lhe os sapatos. Campbell, um ex-jornalista de tablóide, grande escola da falta de escrúpulo moral ou outro, começou a carreira em Downing Street com exercícios de escusa e prova fictícia das razões para invadir o Iraque e saltitar atrás do amigo americano. Campbell telefonava para os jornais e jornalistas traficando informações como quem atira pedaços de carne a um doberman esfomeado, distribuindo ao mesmo tempo umas chicotadas e ameaças sempre que dear Tony estava desagradado com as notícias e amuava. Notícias que o mesmo Campbell lia de fio a pavio com a sua matilha e que interpretava e filtrava para o chefe, dando-lhe a tonalidade escura ou clara que melhor servisse o interesse em manter-se à tona e ao serviço. Quem incorresse na ira de Campbell, que gostava de usar vernáculo no insulto e disfarçava o mau feitio e a arrogância de tiranete com as palavras "personalidade forte" e "politicamente incorrecto" sempre que um dos seus amigos dos jornais traçava dele um "perfil" bajulador, acabava fora do circuito das dicas e biscas que Campbell doava a favor de si mesmo e do mestre. Parte da lenda de Tony Blair como um líder forte e magnífico, certo e bondoso, foi distribuída e criada por dear Alastair, que não percebia por que é que todos os jornalistas não publicavam apenas aquilo que eles lhes dava e que ele chamava "a verdade". A palavra "verdade" é importante, quase todo o spinning é feito usando e abusando da mentira em nome da "verdade". No caso de Campbell, a coisa acabou mal quando David Kelly, o perito em armas biológicas e inspector no Iraque, cortou os pulsos num bosque de Inglaterra, depois de Campbell o ter pública e privadamente enredado numa teia de falsidades, contradições e acusações de traição e deslealdade. De caminho, e dentro deste imbróglio em que nunca se notou um módico de arrependimento pelo desfecho mortal da história, Campbell deu cabo da BBC, obrigando à demissão em cadeia do repórter que tinha entrevistado Kelly e das chefias hierárquicas, incluindo o director. Sem remorso, o spinner celebrou a queda de Bush House, não a Casa Branca e sim uma das mais respeitadas agências de informação no mundo. Campbell, a contragosto, foi forçado a demitir-se por causa do suicídio de Kelly, e ainda teve tempo para acusar os jornalistas ingleses de fraqueza e duplicidade. Blair sobreviveu, evidentemente, e nunca mais foi o mesmo, apesar de continuar a ser aconselhado por Campbell nos bastidores. Em toda a história inglesa recente não há memória de uma personagem tão detestável como este spinner, que fez todos os assessores de imprensa antes dele parecerem uns príncipes. Campbell fez escola, e institui-se como o modelo do spinner contemporâneo, de que o dito Marco Aurélio é o avatar brasileiro. Que gente desta chegue a fazer política e a mandar nos políticos é a consequência da tabloidização da política, entregue à televisão e aos criadores e feitores da "imagem". Os engraxadores profissionais são, afinal, quem ganha e perde eleições, e alguns jornalistas são seus cúmplices e complacentes puxadores de lustro.

Clara Ferreira Alves