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Clara Ferreira Alves

Ser vigarizado com valor acrescentado

Agora vou esperar a factura do mês que vem para ver que novas surpresas me aguardam.

Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)

Empresas-fantasmas que desconhecemos têm acesso a dados que não fornecemos e utilizam-nos de forma fraudulenta e abusiva. No admirável mundo tecnológico em que vivemos, os nossos dados repousam em bancos de dados e servidores cuja existência desconhecemos e não controlamos.

Nas últimas semanas recebi no meu telemóvel mensagens idiotas de um questionário idiota. Género: qual o nome das pirâmides do Egipto. Apago imediatamente estas mensagens e nunca respondo. O que aconteceria se respondesse? Parece que ganharia qualquer coisa. A perplexidade aumenta e o número de SMS também. A coisa dura há mais ou menos um mês. Aparece a factura da Vodafone e um montante de chamadas de valor acrescentado. Que chamadas? Nunca as fiz. Nunca as pedi. Telefono para a Vodafone e o Apoio ao Cliente diz-me que tenho de desactivar o serviço. A empresa 'parceira' da Vodafone Sendit, nº 62999, anda a cobrar-me um serviço que não subscrevi e que desconheço, e ainda por cima a Vodafone diz-me que o problema é meu e que tenho de ser eu a desactivar o serviço. E provar a negativa, que nunca subscrevi o serviço. Dá-me um número de telefone começado por 707 para eu desactivar o serviço.

Respondo que esta é uma vigarice organizada e que ao colocar no cliente lesado o ónus da desactivar um serviço-fantasma, a Vodafone é cúmplice desta vigarice. Mais, provavelmente, a empresa-fantasma teve acesso aos meus dados através da Vodafone. A voz impessoal do outro lado, vagamente irritada, diz-me que não pode fazer mais nada, o problema é meu, eu desactivo e eles, quando muito, aceitam que eu reclame. Eu quero reclamar, quero. Ah, então terá de fazer uma reclamação por escrito. Portanto, recapitulemos, desactivo o serviço nunca activado, reclamo por escrito e ainda por cima tenho de pagar a factura do serviço. Peço para falar com a pessoa que supervisiona o Apoio ao Cliente. A pessoa que supervisiona o Apoio ao Cliente diz-me que só posso conseguir o barramento do serviço por escrito, e pedir o reembolso do montante cobrado. Regresso ao tema de provar a negativa, e pergunto se a Vodafone não tem mais reclamações destas e se coloca o trabalho todo em cima dos clientes lesados. Diz-me que aquilo é um serviço de toques e imagens e que não faz ideia como é que foi subscrito mas que deve ter sido através da Internet. Como? Ah, isso não sabe. A Internet é vasta. O problema é meu. Sinto-me num filme de Jacques Tati. Percebo que há mais clientes com este problema. O máximo que consigo é que diga que vão desactivar o serviço na Vodafone. Ligando para o tal número fornecido. Explicações? Zero.

E a reclamaçãozinha por escrito é com carta e selo? Ou os senhores das novas tecnologias têm um sitezinho para onde eu possa despachar a reclamação? Tem, ela indica-me todos os passos e eu, aplicadamente, conto a situação e solicito o barramento do serviço e o reembolso do montante. Clico em Seguinte, não entra. Clico várias vezes, não entra. Nova chamada para o Apoio ao Cliente. Conto novamente a história toda e peço a supervisão, a pessoa com quem falei antes. A nova funcionária não pode "passar a chamada", tenho de recomeçar do princípio e se me puder ser útil... Ah, barramentos é por escrito, sempre. E carta, e selinho? Não, dá-me um endereço de mail específico para valor acrescentado e diz-me, taxativamente, que através do site não é possível, só com este endereço de mail. A Vodafone tem mensagens contraditórias. Sugestão: organizem-se.

Consigo repetir que uma empresa parceira da Vodafone anda a utilizar o meu número para me cobrar chamadas de valor acrescentado de um serviço que nunca subscrevi e sugiro que os responsáveis da Vodafone cortem imediatamente as vazas a esta parceira em vez de obrigarem os seus clientes a fazer reclamações por escrito depois de terem sido vítimas de uma prática criminosa. Dá-me o número da empresa, ouve-me com impaciência quando falo em prova impossível da dupla negativa e ónus da prova, etc., e no fim repete mecanicamente: em que mais posso ser útil? Sinto que a Vodafone quer que eu vá morrer longe.

Ligo para o dito número da tal empresa parceira. Uma mensagem gravada diz-me para introduzir o meu número de telemóvel para desactivar um serviço de valor acrescentado. Nada mais diz. Notável: tenho de voltar a dar o meu número de telemóvel a uma empresa que sacou o meu número de telemóvel e o usou abusivamente para... me ver livre da dita. Logo, eles continuam na posse dos meus dados. Garantias? Nenhumas. Impunidade? Total. Quem protege os clientes? Ninguém. E agora? Agora vou esperar a factura do mês que vem para ver que novas surpresas me aguardam. Perdi, com este episódio, uma hora do meu tempo. Certamente mais barato que o dos administradores da Vodafone.

Texto publicado na edição da Única de 8 de Maio de 2010