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Expresso

Clara Ferreira Alves

Ronaldo no País das Maravilhas

O SONHO americano é o sonho da transformação, o sonho da transformação em processo de perfeição. Ao contrário do que se imagina de fora, e ao contrário da propaganda vigente, o sonho americano não está ao alcance de qualquer um nem é um admirável mundo de Oz onde todos possam entrar. Dadas as condições exigidas aos candidatos, o sonho americano é um sonho guardado para os mais competitivos, ambiciosos, obstinados e qualificados de todos, e só os "achievers", os vencedores, acabam por vencer. A realização do sonho significa que está aberta a porta para um mundo melhor, não só um mundo perfeito, um mundo mais que perfeito. Um mundo de cintilações de elegância e opulência, de pessoas e objectos brilhantes, onde a componente material é acentuada pela excelência da oferta e dos serviços. Este mundo só é possível pela aquisição de dinheiro, muito dinheiro, e só se oferece aos vencedores que tenham muito dinheiro. O mundo dos milionários, e para se ser um milionário considerado na América tem de se ser um "achiever", o dinheiro herdado não qualifica automaticamente, nem o dinheiro sujo, é um mundo onde só se consome e só se adquire o melhor, o mais belo, o mais caro, o mais refinado.

Entre os grandes árbitros do gosto que definem o que é o belo, o caro e o melhor, a revista "Vogue" tem um papel decisivo, e outras revistas do mesmo grupo Condé Nast, a "Vanity Fair" e a "New Yorker", também. O mundo que passa na "Vanity Fair" é a mistura do óptimo jornalismo de investigação, reportagem de guerra e opinião com o mundo da futilidade e da hagiografia qualificada das estrelas de cinema. A revista está marcada pela veia liberal do seu editor, Graydon Carter, e a opção política da "VF" é claramente anti-Bush, anti-republicana e anti-guerra do Iraque, apesar de um dos colunistas mais lidos e polémicos, e mais inteligentes, Christopher Hitchens, ser um esquerdista que apoiou a invasão e que escreveu alguns dos mais violentos artigos contra o casal Clinton. O liberalismo chique de Hollywood encaixa muito bem no liberalismo caviar e ecológico, e o encontro dos mundos produz belas fotografias e algum do mais violento jornalismo que se tem publicado na América. A "Vanity Fair" pode ser uma feira das vaidades mas, só contrata e paga aos melhores, publicados ao lado de Tom Cruise e dos portefólios da Leibovitz. A "New Yorker" é o snobismo na literatura, embora exagere no snobismo e na escolha diferenciada, publicando textos irrelevantes de escritores famosos só porque são famosos. De Pamuk publica-se um minúsculo excerto no número de Março que mais valia não ser publicado. Mas Pamuk é Nobel, e está na moda. Das três revistas, a mais influente, no seu segmento, é a "Vogue".

O mundo que passa na "Vogue" e é fotografado na "Vogue", com o seu papel grosso e acetinado, as suas paginações ordenadas, as suas opções gráficas e estéticas imaculadas, e a sua lista de colaboradores de primeira água, de fotógrafos a escritores, é um mundo perfeito. Onde não pinga uma nódoa de vulgaridade. A grande qualificação de Anna Wintour, a directora e inspiradora da formidável figura matriarcal do filme "O Diabo Veste Prada", onde Meryl Streep é uma Anna geneticamente modificada, é a de ter sabido não apenas fazer da "Vogue" esse objecto de luxo indiscutível como a de ter inovado na concepção do que é e deve ser o luxo, e ter transformado a revista na mais bem sucedida revista feminina do mundo. Misturar uma reportagem sobre as mulheres do Afeganistão com uma reportagem de moda onde cada peça de roupa custa milhares de dólares e fazer isto com naturalidade não é tão fácil como se supõe e pressupõe um faro jornalístico e um elevado grau de percepção da realidade das mulheres e influência nessa realidade. A "Vogue" americana faz o que faz o cinema, faz sonhar. E todas as suas propostas passam a ser parte desse mundo perfeito onde as mulheres são todas belas e inteligentes e os homens são os seus belos acessórios. A "Vogue" americana fez pedagogia e distribuiu poder às mulheres, ensinou-as a usar a saúde, a beleza, a roupa, o gosto, a intuição, a liberdade e o dinheiro a seu favor. E o que a "Vogue" determina, com os estilistas e estilos que escolhe, é o que a rua irá copiar. A "Vogue" democratizou, à boa maneira americana, a moda, sem deixar de ser um sonho inacessível a não ser na contemplação das suas páginas. É por isso que ver o jogador português Cristiano Ronaldo servir de modelo na "Vogue", ao lado da "top model" Daria Werbowy, parece um sonho. Lá está ele, o rapaz do rosto indefinido, atravessado pelas certezas da vitória e da vocação, o rosto suburbano do jovem português com a sua dose de masculinidade vulgar e de mau gosto e mau corte de cabelo, o rosto do miúdo pobre que se fez rico. Transformado num Apolo recortado em papel. O diamante na orelha, o cabelo untado, a maxila quadrada, o corpo atlético, transformam-se em símbolos de poder, beleza e dinheiro. Ronaldo como ídolo estético, e, diz a revista, o jogador mais carismático e criativo do mundo. Não se chega aqui por acaso. Se a "Vogue" escolheu Ronaldo, é porque Ronaldo tem o que a "Vogue" representa. O cheiro doce do sucesso. O sonho americano em português por causa do futebol, a nossa única glória.

Clara Ferreira Alves