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Expresso

Clara Ferreira Alves

Os 100 pouco mais ou menos

A REVISTA "TIME" voltou a publicar a lista das 100 pessoas mais influentes do mundo. Como todas as listas do género, diz mais sobre quem escolhe do que sobre os escolhidos. A maioria deles não tem nenhuma espécie de influência no mundo, embora o narcisismo americano tenha tendência a confundir a América com o centro do mundo. Excluindo os nomes óbvios como o do Dalai Lama ou o de George W. Bush, de Oprah Winfrey ou Barack Obama, de Vladimir Putin ou Steve Jobs, de Hillary Clinton ou do casal Jolie/Pitt, a maioria dos escolhidos pertence a uma espécie de clube, o dos anteriores nomeados e suas escolhas pessoais. Fora dos Estados Unidos, e mesmo dentro dos Estados Unidos, estas pessoas têm a influência sectorial restrita a um grupo de pessoas, e apesar do trabalho meritório de muitos, esse trabalho não reflecte o poder de esculpir as ideias e as vidas da aldeia global.

Segue-se o critério do bom comportamento ou da filantropia dos escolhidos, o que coloca de fora da lista os influentes mais mal comportados ou que tenham com a América uma relação conflitual. Estabelecido o habitual sistema de quotas, uns tantos não americanos, uns tantos negros, umas tantas mulheres, uns tantos étnicos, raros, o que domina a lista dos 100 mais é o clube da língua inglesa e da sua área de influência. As quotas ajudam a camuflar a brutal assimetria, sem a intenção de corrigir e com a intenção de legitimar.

A ausência de gente verdadeiramente influente é proporcional à aceitação, por essa gente, da supremacia americana. Não constam da lista Hugo Chávez, Presidente da Venezuela, nem Ahmadinejad, Presidente do Irão. Com o barril de petróleo a mais de 120 dólares, o Irão e a Venezuela podem investir o seu dinheiro na hegemonia regional e no armamento de quem quiserem. Chávez, agitando a espada de Simão Bolívar e o busto de Fidel, aspira a liderar toda a América do Sul, com excepção do mundo brasileiro que lhe escapa justamente por causa dos 180 milhões que falam português (e que tanto incomodam os fundamentalistas portugueses da língua), e a estabelecer uma influência continental. O Irão e a Venezuela são dois impulsos combinados para manter o preço do petróleo onde está, com a ajuda dos especuladores e dos outros produtores de petróleo, da Nigéria à Arábia Saudita, e não pararão aqui. A procura aumentou tanto (300 milhões de chineses saíram da pobreza) que a oferta pode atingir os 200 dólares o barril. Sentados em cima desta fortuna inesgotável, Chávez e Ahmadinejad garantem a sua sobrevivência e a dos regimes que quiserem apoiar. O Irão gasta dinheiro a armar o Hamas em Gaza e o Hezbollah no Líbano, ou os xiitas do Iraque. A manutenção da guerra serve os seus interesses. Perdeu-se já a oportunidade de transformar dois movimentos guerrilheiros ou "terroristas" em dois partidos políticos, com consequências catastróficas para o Médio Oriente.

Dois outros ausentes da lista da "Time" são Osama Bin Laden e Hassan Nasrallah. Bin Laden e o seu estratego Al-Zawahiri continuam a ser duas forças dominantes do mundo árabe extremista, e dois heróis contemporâneos para grande parte do Islão. O 11 de Setembro obrigou o Ocidente a olhar para o mundo árabe e a aprender as novas regras do jogo, e deu a esse mundo uma visibilidade e um poder que não possuía desde a expansão do império islâmico a partir do século VII. Nasrallah, um extremista que transformou um grupo marginal e destituído como o Hezbollah num exército capaz de humilhar Israel (impensável há uns anos) e numa força política capaz de paralisar o Líbano, é uma das personagens mais influentes na região, muito mais do que o escolhido Muqtada Al-Sadr, um bandido local cuja força é o resultado da fraqueza e do falhanço da estratégia americana no Iraque.

O grosso da lista mostra uma série de nomes pouco conhecidos ou de "has been" sem peso real a não ser o das boas intenções. André Agassi? Mia Farrow? Lorena Ochoa? George Mitchell? Jill Bolte Taylor? J. Craig Venter? Mehmet Oz? Harold Ickes? Nancy Brinker? Harold McGee? Peter Provonost? Wendy Koop? Tim Russert? Judd Apatow? Suze Orman? Tyler Perry? Cynthia Carroll? E muitos mais. A lista de ilustres desconhecidos fora da América é a maior de sempre. Gente com muito mérito e com escassa consequência global. A lista de ausências é escandalosa, e a de repetentes também. Tony Blair? Repete escolhido pelo amigo Bill Clinton. A lista é preconceituosa e estreita, e exclui todo o mundo de língua portuguesa e quase todo o da língua espanhola, como sempre. E o chinês. E o indiano. E o africano. Etc. O que demonstra a eficiência das políticas da língua inglesa, filtro de todas as outras. A estratégia da lista não é inocente, ajuda a manter a quimera da supremacia intelectual. Fernando Henrique Cardoso, Durão Barroso, Lula da Silva, Caetano Veloso, José Saramago, Paulo Coelho, António Guterres, Cristiano Ronaldo e José Mourinho são mais influentes do que muitos dos listados, quer os apreciemos ou não. Não é preciso listá-los. Falam português e, para a gente da "Time" e da sua lista, o mundo de língua portuguesa não é um mundo influente. Nem o mundo espanhol. Estão enganados.

Clara Ferreira Alves