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Clara Ferreira Alves

O Tozé seguro morreu de velho

Entre a velha geração de Soares e esta, a 'nova', vai uma distância que, seguramente, não descerei.

Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)

Assentando um pé sobre o cadáver morno do primeiro-ministro do seu partido e confessando "agora sou solidário com o Governo do meu partido", António José Seguro lançou a candidatura a chefe do partido dele. Não agora, agora ele está solidário; daqui a uns tempos e achando que pode ser útil, assumirá as suas responsabilidades.

Com o devido obséquio, nunca achei Tozé Seguro um candidato palpitante, e fui ler a entrevista à Única num alvoroço. Na semana em que Portugal foi enxotado pela Europa como um tinhoso e os portugueses foram chamados a assumir as suas responsabilidades fiscais e a pagar os sarilhos em que o partido de Seguro nos ajudou a meter com a colaboração de Seguro que seguramente sabia o que lá andava a fazer. Seguro assegura, com douta modéstia, a sua contribuição para a crise. "Eu sou atingido pela mudança de escalão: passo dos 43% para os 45% de IRS. Acho bem. Porventura resulta pouco dinheiro de impostos daqui, mas é de pequeninos gestos como este que precisamos para sair deste afogo, para o qual também nos pusemos a jeito".

E as jornalistas (Cristina Figueiredo e Mafalda Anjos): "Pusemo-nos a jeito? Explique lá isso". Explica: "Temos problemas crónicos que não vieram com a crise nem vão embora com ela. O nosso crescimento económico é muito baixo e consumimos acima das nossas possibilidades. Isto significa que teremos de fazer um esforço muito grande para colocarmos o país a crescer". E continua: "Pertenço a uma geração que não se resigna com o estado de coisas a que o país chegou, nem sequer com a ideia, secular, de que somos um povo que não se governa nem se deixa governar. A minha ambição é que possamos crescer ao nível dos países mais desenvolvidos da UE e que as próximas gerações possam ter as mesmas oportunidades das gerações desses países. É óbvio que isto não se resolve a nível nacional, resolve-se a nível mundial e sobretudo europeu".

Em que ficamos? Nacional ou mundial? O problema é nosso, ingovernáveis e postos a jeito, ou é do mundo e da Europa? E a propósito de mitos 'seculares', o problema dos portugueses não é serem ingovernáveis, é serem mal governados. E serem mal governados por gente que se governa muito bem. Incluindo gente do partido dele, e da geração dele, e não me façam trazer aqui essas exemplares criaturas que todos conhecemos. Gostava que Seguro tivesse dito qualquer coisa sobre Rui Pedro Soares como disse sobre os prémios edipianos de Mexia.

Eu também não me resigno, sendo de uma geração mais velha que a de Seguro, que Seguro tenha andado estes anos todos na JS e no PS e tenha tido as responsabilidades governativas e parlamentares que teve no PS, sem abrir a boca sobre o modo como colectivamente nos "pusemos a jeito". Com tantos amigos e outlets, posts, blogs, facebook, twitter, site, Seguro teve oportunidades de nos alertar, e de alertar o partido, para os nossos "problemas crónicos". Para o nosso "consumo acima das nossas possibilidades".

Na semana em que o PS perdeu as próximas eleições, António José Seguro, com a segurança de quem nada teve a ver com o assunto, confessa a desilusão com as elites e os responsáveis políticos que pedem sacrifícios aos portugueses sem darem o exemplo. Decerto por desatenção minha, em todos estes meses em que o PS se enrolou em escândalos e hesitações e perdeu a autoridade moral para exigir sacrifícios aos portugueses, não ouvi levantar-se a voz virtuosa deste socialista. Em toda a entrevista não se vislumbra um das virtudes do chefe que ele quer ser. Só encontrei piedades. A minha vida é transparente. Os partidos têm de regressar para junto das pessoas. Um aperto de mão é tão importante como uma assinatura. Devemos entrar de cabeça erguida em qualquer sítio. E foi o pai que lhe ensinou.

Seguro sabe o que é a solidariedade: "A política tem dois mundos. Quando faço conferências, digo sempre que há a política com p pequeno e a política com p grande. Encontrei gente de grande nobreza na política. Foi na política que aprendi este valor da solidariedade, uma característica que me atribuem por causa do momento em que eu vim do Parlamento Europeu para o Executivo já na fase de declínio do Governo de António Guterres". Ser solidário é o protegido deixar a sinecura de Bruxelas e vir para o Governo do protector.

É isto um pensamento político? A esquerda? O Seguro é o futuro? Parece um bom rapaz e muito trabalhador. Deixo-o reformar o Parlamento, ouvir Céline Dion e escrever isso no Facebook. Não o deixo governar-me com o meu voto. Entre a velha geração de Mário Soares e esta, a 'nova', vai uma distância que, seguramente, não descerei.

Texto publicado na edição da Única de 22 de Maio de 2010