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Expresso

Clara Ferreira Alves

O terrorista inteligente

No dia 14 de Janeiro de 2008, o único hotel de luxo de Cabul foi atacado. Ao entardecer, quatro homens fardados de polícias entraram armados com granadas, metralhadoras AK-47 e bombas. Um suicida fez-se explodir. Os outros dispararam rajadas que mataram oito pessoas, incluindo um jornalista norueguês, um cidadão americano e uma filipina que trabalhava no spa do hotel. O ginásio e o spa foram o alvo, visto que aí se concentrava a maioria dos estrangeiros que frequentava o Hotel Serena. Um carro armadilhado explodiu na entrada. Dezenas de pessoas ficaram feridas. Uma delegação norueguesa presidida pelo ministro dos Negócios Estrangeiros estava hospedada no hotel. Os seguranças noruegueses esconderam a delegação na cave, que servia de "sala de pânico". O Serena era o lugar mais civilizado de Cabul, uma cidade em desordem perigosa onde os estrangeiros têm pouco acesso à sofisticação ocidental. O spa e o ginásio estavam sempre cheios, o bar também, e o cabeleireiro tinha listas de espera. Um porta-voz dos talibã, Zadihullah Mujahid, reivindicou o atentado como sendo a Al-Qaeda, e prometeu que os estrangeiros não iriam dormir descansados.

Este atentado quase não foi notícia no mundo. E nada se aprendeu. O fracasso do esforço construtor no Afeganistão, nation building, e o fracasso e a corrupção do governo de Hamid Karzai não constituem mais do que um rodapé noticioso. Todos os dias explodem bombas no Afeganistão e os soldados americanos e ingleses continuam a morrer. A NATO é impotente para travar a subida do poder militar e da força dos talibã, e a cidade de Peshawar, na Província da Fronteira do Noroeste do Paquistão, está nas mãos das tribos pashtun que querem expulsar os estrangeiros da região e reinstalar uma sociedade islâmica radical. Na fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão, uma fronteira imaginária que não existe nem nunca existiu, a chamada Linha Durand, desenhada pelos ingleses, a Al-Qaeda montou nas FATA (Federally Administered Tribal Areas) uma central de terrorismo que continua a planear e recrutar com uma precisão e uma paciência assinaláveis. Há sempre um atentado terrorista que desespera o Ocidente. Chegou a vez de Bombaim ter "o seu 11 de Setembro", como Londres e Madrid o tiveram.

Ao contrário do atentado do Serena Hotel, os atentados do Taj Mahal e do Oberoi tiveram uma cobertura em directo, 24 sobre 24 horas. Vinte homens armados, grosso modo, imobilizaram uma cidade de quase vinte milhões de pessoas e mataram quase 200. O que quer dizer que a proporção é dez vezes mais, cem vezes mais, um milhão de vezes mais. Entre o atentado do Serena Hotel e os do Taj Mahal e Oberoi, o Marriott de Islamabade foi também destruído por um camião carregado de explosivos. Estes hotéis de cinco estrelas eram poiso favorito de estrangeiros e serviam de entreposto da civilização em países menos civilizados do que os nossos. A Al-Qaeda sabe isso.

A Al-Qaeda é uma marca de absoluto sucesso, ao contrário do que dizem os políticos e os militares. É, em primeiro lugar, uma marca que impôs ao mundo as suas regras. É uma organização que tem fundos, tem militantes potenciais em número infinito, tem um chefe estratégico (o dr. al-Zawahiri) e tem um símbolo chamado Osama bin Laden. Qualquer que seja o estado físico de Bin Laden, doente, vivo ou morto, forte ou frágil. E, por todo o lado, novos chefes terroristas aparecem. Mais sofisticados e informados do que os anteriores. Usando os fundos e a Internet, as novas tecnologias e as novas armas, aprendendo com o inimigo, sobrevivendo e adaptando-se, os novos terroristas continuam a matar, recrutar e treinar. Contra isto, a Europa previne-se, redobrando a vigilância e abortando atentados (os ingleses são os mestres da táctica) e a América acumula erros na política externa. Infelizmente, Barack Obama parece não perceber o problema, quando ameaça ir atrás de Bin Laden nas cavernas do Afeganistão.

Os atentados de Bombaim, a sua eficácia espectacular, têm a marca Al-Qaeda. Com a experiência do Serena e do Marriott. Os media continuam a privilegiar o jornalismo sentimental, as histórias das vítimas, a beleza chamuscada do Taj, o terror dos reféns, ou seja, as histórias que dizem nas entrelinhas: podia ter sido eu. Um jornalista da CNN que estava fora do hotel relatava o seu medo e sorte. Não tinha visto nada. O pivot perguntou-lhe pelo passaporte e as coisas que ficaram no quarto, que "situação horrível". Isto durou uns 15 minutos. Donde, o passaporte e a bagagem tiveram mais tempo de antena do que os mortos e o atentado de Cabul. A Al-Qaeda agradece. Já entendeu como é que dá nas vistas matando ocidentais. De preferência israelitas, americanos, ingleses. De preferência, num lugar de luxo cheio de correspondentes. Se matar os locais, ninguém quer saber. Como ninguém se importa com os afegãos mortos por atentados no Afeganistão. Podíamos ter sido nós. Toda a gente que ficava no Taj sabe quanto custa ver arder uma obra-prima. O terrorista inteligente sabe o que isso nos custa. Sabe o que nos aterroriza, mobiliza e emociona. Os hotéis vão sofrer a sorte dos aeroportos. Segurança reforçada, scanners, revistas. O Ocidente vigia e pune. Não muda de estratégia. Não aprende. Algures, os terroristas vão experimentando e medindo a nossa resposta. E conseguem sempre surpreender-nos. A guerra continua.