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Expresso

Clara Ferreira Alves

O plano Sócrates

O Aeroporto da Ota não é apenas um projecto estratégico não suficientemente explicado. Passou a ser um "compromisso pessoal" do ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, e por esta razão singela e nada nacional, terá de ser concluído antes de 2017. Parece que o projecto de construção está muito atrasado e "Portugal corre o risco de perder competitividade". Estas extraordinárias declarações foram feitas por Mário Lino numa sessão de abertura da conferência internacional "Transporte Marítimo, Portos e Globalização das Economias", em Lisboa. O jornalismo que temos e que desistiu de raciocinar e perguntar, limitou-se a papaguear as palavras do ministro, bizarras quando misturam compromissos pessoais com visão estratégica. Segundo os jornais, Mário Lino deu a conhecer três projectos que integram o Plano que o Governo está a desenvolver, um investimento global de 842 milhões de euros, que visa "garantir a articulação entre os sistemas portuário e ferroviário nacionais" e aumentar a "competitividade global dos principais portos portugueses". Um dos projectos é a ligação do porto de Aveiro à rede ferroviária nacional, que estará concluída em 2009, e que garantirá a ligação da linha da Beira Alta à região de Castilla e León, em Espanha. O segundo projecto será a construção, a concluir em 2012, do "corredor para mercadorias que ligará directamente o porto de Sines e a sua zona industrial e logística a Elvas/Badajoz e que será articulado com a ligação de alta velocidade ferroviária a Madrid". O último projecto é a "ligação dos portos de Lisboa e Setúbal com a linha de alta velocidade ferroviária". Para o ministro, "a concretização dos projectos em curso é determinante para a articulação do sistema portuário nacional com a rede transeuropeia de transportes, dando-lhe a dimensão necessária para a sua integração no sistema portuário europeu e mundial". As peças soltas do puzzle, ou seja, a intenção deste Governo de fazer de Portugal uma plataforma logística, começam a encaixar. Sobre este ambicioso plano estratégico, podemos dizer que é melhor haver um plano estratégico do que não haver, visto que sem planos, sem estratégia e sem desígnio, delapidando os dinheiros europeus, temos vivido estes anos todos. Mas este plano estratégico implica, da parte do povo português, uma crença absoluta na sua utilidade, na boa conclusão e na rigorosa administração, o que é pedir muito. Se a Ota se integra e é parte essencial deste plano, ficou por demonstrar a solução da Ota como a melhor solução. Mais grave ainda e apesar do compromisso pessoal do ministro, a Ota será ou seria necessariamente concluída por outro Governo, e seria uma herança que um Governo de outra cor política não quereria ou saberia administrar. Ao contrário da Expo, em que o Bloco Central se pôs de acordo, a Ota não é aceite pela Oposição, por mais ténue que ela seja, o que leva a perguntar se estas opções de fundo, não devidamente explicadas ao país e cozinhadas nos gabinetes ministeriais e nos almoços de empresários e de beneficiários principais (há muito dinheiro a ganhar neste plano, e muito dinheiro a arrecadar pelo partido), foram devidamente pensadas em todas as consequências políticas, económicas, sociais e ambientais. Há décadas que Portugal começa projectos salvadores de grande envergadura que se transformam com a passagem do tempo e os adiamentos em elefantes brancos. Este projecto, com todas as mudanças que implica, não pode ser apresentado numa conferência e como quem não quer a coisa. Sobre o famoso "corredor de mercadorias" de Sines, Setúbal e Lisboa, a caminho de Espanha, o que vemos é que o Alentejo e parte da costa alentejana serão engolidos neste projecto, que trará desordem ambiental e poluição na terra e no mar, aumentará a carga rodoviária na região e desfigurará o território. Junte-se a isto a intenção da "plataforma" para a entrada de produtos chineses na Europa e o puzzle começa a ganhar desenhos nítidos. O que o ministro quer dizer é que Portugal, de norte a sul, será estrategicamente uma plataforma de entrada de produtos em Espanha e depois na Europa, o que demonstra que não me enganei quando disse que Portugal deixara de ser um país. No país da ponte de Entre-Os-Rios e do desastre do Tua, entrevê-se a megalomania de passarmos a ser um "hub" ferroviário, rodoviário e portuário. Num país onde se demora de Lisboa ao Porto mais ou menos o que se demorava há 20 anos, como é que isto encaixa? Do ponto de vista do ordenamento do território, como é que isto encaixa? Mais: se os transportes terrestres e aéreos, devido aos problemas das fontes de energia no futuro, e das alterações climáticas, começam a ser revistos em todo o mundo, não corremos o risco de concluir um projecto quando ele se tornou obsoleto? Foram estas razões acauteladas? Para não falar nos múltiplos esquemas de corrupção e desordem que crescerão como cogumelos à sombra desta árvore das patacas. Se o país não tivesse a Oposição indigente e acéfala que tem, nem o Parlamento morto que tem, há muito que José Sócrates teria de se explicar em público sobre este plano estratégico, e teria de nos explicar o que quer fazer com Portugal e com os portugueses.

Clara Ferreira Alves