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Expresso

Clara Ferreira Alves

O filho único

NÃO HÁ nada mais difícil do que escrever sobre a dor. Os pais seguram na mão as botas de futebol do filho único que enterraram num bocado de chão escapado ao terramoto de Sichuan. Num montinho de pedras e terra rala o pai e a mãe improvisam uma sepultura e um cerimonial. Junto da sepultura do filho depositam todos os objectos de que gostava, especialmente os brinquedos e as botas de futebol, e ajoelham como quem está num altar. O pai, dorido e lacrimoso, conta que o filho ficou enterrado vivo por baixo dos escombros da escola, toneladas de entulho e cimento, vigas, ferros retorcidos, pedras, vidros, onde os socorristas conseguiram escavar um buraco. A voz do filho vinha dos fundos da escuridão, ainda vivo, pedindo que o tirassem dali. Depois, o filho disse "pai, tenho fome" e morreu. Retiraram o corpo morto.

Devido à política do filho único da China, os pais tinham apenas este rapaz que, segundo a cultura chinesa, um dia os encheria de orgulho e tomaria conta deles quando fossem velhos. Na cara deles, desgostada e enrugada, avaliava-se a ausência de frescura. Tarde de mais para ter outro filho. Tinham perdido tudo no terramoto da China, a casa, as coisas, a vida, e, por cima da vida, o filho. Não queriam mudar de lugar, trocar de cidade, queriam ficar ali porque noutro lugar ninguém conseguiria entender a sua dor.

Deambulavam como fantasmas pelas ruínas onde tinham morado, dois corpos vivos no meio de cinzas e cadáveres onde os socorristas espalhavam incenso e amoníaco contra as doenças e a contaminação. Na escola onde o filho andava todos os alunos tinham morrido. Onde num dia tinha havido uma festa de fim de curso, no dia seguinte havia apenas corpos a apodrecer. Amoníaco e incenso.

O terramoto da China ou o ciclone da Birmânia remetem-nos para noções de perda que a nossa confortável vida desconhece. Embora tratemos muitas coisas como catástrofes naturais, o terrorismo, a guerra, as catástrofes naturais são situações terminais que podem afectar toda a gente, embora afectem mais os pobres e remediados do que os ricos. Lisboa já teve o seu terramoto, e tudo indicaria, se considerássemos os prémios altíssimos pedidos pelas companhias seguradoras "em caso de sismo", que teria o seu segundo terramoto.

Ao contrário da China, que teve capacidade de resposta para a catástrofe, a Birmânia mostrou a crueldade feérica de uma ditadura que recusa o auxílio internacional para se manter no poder e que faz um referendo em cima da catástrofe. Tal como a dor, este género de crueldade é difícil de descrever e classificar. De um dia para o outro, cem mil pessoas são esmagadas como um carreiro de formigas e ninguém sabe muito bem o que fazer ou dizer. Como ajudar.

A história individual acaba por comover mais do que a cavalgada dos números, 10 mil, 20 mil, 30 mil, 50 mil, 100 mil. Os números são abstractos e, na idade da indiferença, em que mastigamos o jantar junto com o sangue dos outros, os números deixaram de fazer sentido ou provocar emoção. O Iraque deglute-se antes da telenovela e do concurso. A história individual pertence ao jornalismo.

Resta o casal de chineses, ela sem conseguir dizer uma palavra, a voz engolida pelas lágrimas secas, uma mãe no limite da desolação, no deserto da humanidade, um pai segurando nas mãos os sapatos de treino, um pouco gastos nas pontas e nas solas, entortados, sapatos de rapaz activo e forte, sapatos de rapaz que pratica desporto e é imortal. E os dois escavando a terra com as mãos, para acomodar os pertences do filho, a despedida.

O que aconteceu na China e na Birmânia é-nos apresentado em rodapé como um problema de escala. Algum jornalismo contemporâneo resolveu reduzir a morte a uma estatística, e a contagem dos mortos daria a medida do acontecimento. A operação tem o efeito oposto, o de desumanizar a catástrofe, a morte, a destituição, a dor. Reduzida a números, a perda torna-se uma operação abstracta de aritmética. É nesta zona perigosa da assepsia dos sentimentos, com tanto medo que temos hoje de ser sentimentais, que entra o jornalismo de reportagem. Foca a luz onde ela deve ser focada, na história e não no kitsch histórico. O terramoto na China fica a ser aquele casal sem o único filho, as caras envelhecidas, as mãos magras, os peitos encovados, os olhos sem sono. Não existe maior secura do que esta, a da perda inconsolável.

O terramoto deu-nos um retrato da China muito diferente do que a China queria dar neste ano triunfal dos Olímpicos e dos atletas e medalhas. Um país solidário e eficaz no resgate. Deu-nos um retrato de uma parte da humanidade. A Birmânia, graças aos seus ditadores, nem a isso teve direito. Os jornalistas lá andam, escondidos, infiltrados, narrando e relatando com sobriedade. Nestes dias, o jornalismo volta, por momentos, a ser uma profissão nobre, e não lixo cínico e sensacionalista em que o converteram.

Clara Ferreira Alves