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Clara Ferreira Alves

Neda, um ano depois

Um ano depois, sem este documentário do HBO, Neda estaria ainda mais morta.

Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)

O canal cabo HBO estreou esta semana o documentário de Antony Thomas "For Neda". Horas antes já o documentário estava no YouTube, as imagens de Neda caída no chão, com os olhos muito abertos de espanto de se ver morrer, o sangue a jorrar da boca e uma mancha vermelha escura a alastrar no alcatrão.

Neda Agha Soltan, 26 anos, foi assassinada durante as manifestações da "revolução verde" que se seguiu à suspeita eleição de Ahmadinejad como Presidente do Irão e à confirmação pelo Líder Supremo, o ayatollah Khamenei. No documentário vemos o assassino, um membro da milícia Basij, a ser despido pela multidão que acaba por o deixar ir embora sem retaliar, obedecendo aos princípios da confrontação não violenta. O homem terá dito que não queria matar Neda, não tinha intenção. É curioso como alvejar uma mulher numa multidão pode ser um gesto acompanhado do desejo de não matar. O assassino nunca foi perseguido ou acusado. Desapareceu nas dobras do regime iraniano, um regime ditatorial que parece despertar simpatias em gente como Lula. Ou Chávez. Um ano depois, não sabemos quantos prisioneiros políticos existem, as torturas a que são sujeitos, quantos foram e serão ainda executados.

Depois do entusiasmo inicial com a revolução verde e o milagre da multiplicação tecnológica, o mundo desinteressou-se. Ahmadinejad anda por aí, dizendo o costume, preocupado com os direitos humanos em Gaza e não no Irão. A revolução verde, mais do que atestar a supremacia do Twitter ou do Facebook, foi uma revolução de mulheres. Porque o islamismo iraniano oprime, controla, vigia, reprime, mata e pune as mulheres com brutalidade. E usa os homens e mulheres basij, a organização paramilitar que serve de olhos e ouvidos do regime, como vigilantes dos costumes e guardiões do statu quo. Os inimigos dos saltos altos e do batom são a guarda pretoriana dos ayatollahs.

"Para Neda" conta finalmente um pouco da história de uma mulher que é mais do que um nome. Não gostava do tchador desde criança, gostava de cantar, dançar, viajar e ler livros proibidos como "O Monte dos Vendavais" (Emily Brontë) ou "Siddhartha" (Hermann Hesse). O documentário, graças à coragem de um jornalista iraniano que arriscou a vida, entrevista a família de Neda. O pai revoltado, a mãe chorosa, o irmão que nunca mais cortou a barba ou o cabelo em sinal de luto, a irmã comovida. A irmã, com um véu donde se soltam madeixas oxigenadas, narra o gosto de Neda pela liberdade. Neda acreditou que a sua presença nas ruas de Teerão, junto com os milhares de manifestantes e apoiantes de Mousavi, contribuiria para a abertura do Irão. Quando as ruas se tornaram um lugar de massacre, Neda tombou nos braços de um jovem médico que estava ao lado e tentou assisti-la. O professor de música de Neda, que a acompanhava e a fez voltar para trás na fuga, preocupada, levou-a num carro para o hospital, recusando acreditar na palavra do médico quando disse que nada havia a fazer. Neda era cadáver. Tão cadáver como as mulheres que vemos no documentário: enforcadas, uma delas estrebuchando na agonia, pendurada na corda, ou atadas e cobertas com um saco branco, apedrejadas por um círculo de homens.

Para o caso de termos esquecido o que é o Irão para as mulheres, este documentário ilustra graficamente as execuções, prisões e arbitrariedades do regime islâmico. A violência grotesca. Uma das basij avisara Neda horas antes da morte para ter cuidado. Porque os homens não suportavam a beleza feminina e atiravam a matar sobre as mulheres mais belas, eliminando a inquietação que a beleza produz. O filme mostra bem o que é uma república dirigida por machos religiosos e fanáticos dispostos a controlar o prazer, a alegria, os trajes, o cabelo, a existência e a inteligência das mulheres. Dispostos a considerá-las inferiores. E a matá-las por subversão.

Confesso que depois de ver "Para Neda", o regime iraniano me pareceu ainda mais odioso e odiosa qualquer defesa que dele se apresente. Nada justifica a morte de Neda nem os milhares de mortes anónimas e invisíveis. Não vejo na morte de Neda algo de redentor. Torná-la um símbolo não a traz à vida. Neda é a vítima, morreu por coisa nenhuma. Uma rapariga que só queria dançar, estar com a família e os amigos, estudar, poder mostrar a cara. Ser como as outras: nós. Livres. O epílogo político da sua morte define Ahmadinejad. O regime acusou a CIA primeiro e a BBC depois de uma conspiração montada para usar Neda como arma de arremesso. O médico e o professor de música seriam parte desta conspiração do Ocidente para deitar abaixo a "justa" eleição de Ahmadinejad e fazer o Irão passar mal nas notícias. Um ano depois, sem este documentário do HBO, Neda estaria ainda mais morta.

Texto publicado na edição da Única de 19 de Junho de 2010