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Clara Ferreira Alves

Mercados e peixeiradas

Os mercados comerão os nossos bocados do chão. 

Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)

"Estamos a assistir ao comportamento de uma matilha de lobos nos mercados. Se não pararmos estas matilhas, elas farão os países mais fracos em bocados."

Anders Borg, ministro das Finanças da Suécia

Nos dias que correm não devemos tomar o pequeno-almoço antes de consultar os mercados. Queque, iogurte, uma peça de fruta. E como é que estão os mercados? Inquietos? Instáveis? Desconfiados? Descrentes? Serenos? Seguros? Meu Deus, os mercados caíram? O dia vai correr mal. Os mercados seguraram? Estamos salvos, pelo menos antes de voltarem a cair. O que pode acontecer nos próximos 30 minutos; ou 30 segundos. Tempus fugit, como diziam os romanos. E a propósito de romanos, e de gregos, neste mundo (des)regulado pelos mercados, os únicos lugares onde estas civilizações ainda possuem crédito é nos museus. No Museu Britânico, os mercados e o défice, o segundo conceito mais fundamental (ontologicamente fundamental) a seguir a mercado, não existem.

Nas salas das ilhas Cíclades a Grécia continua imperturbada. Máscaras de serenidade, figuras sem sexo definido com a cara lisa e um nariz em triângulo perfeito. Figuras que nunca viram um índice, seguramente. Um Dow Jones, um Nikkei, um Dax, um FTSE.

Em compensação, as salas dedicadas ao Médio Oriente, à Mesopotâmia, às civilizações suméria, akkadiana, aos grandes impérios babilónico, assírio e persa e, evidentemente, ao mundo islâmico, estão cheias e renovadas. Não existe grande museu que não tenha inaugurado salas dedicadas ao islamismo. Deve ser pelas implicações do terrorismo nos mercados. Gerações futuras entrarão nos museus e observarão os restos da civilização ocidental com o desinteresse orgânico com que observamos o sarcófago com o retrato de Artemidorus e a múmia ptolemaica e dirão: e estes? Quem deu cabo deles? Como implodiram? Caíram? Decaíram?

Foram os mercados. Os mercados e os media. Os media, como os mercados, estão sujeitos a estados de alma súbitos e devastadores. Vejam as eleições na Grã-Bretanha, também conhecida como Reino Unido; embora, à luz diáfana dos mercados, a Bretanha não seja tão Grã assim (falida, claro, mais do que a Grécia e a Espanha) e menos ainda seja o Reino tão Unido. Mr. Cameron não ganhou por maioria por causa do norte e da Escócia, onde esse espírito residual do operariado e do independentismo não cede aos encantos posh de Eton e Oxford.

Os media só falam de duas coisas: o ódio a Gordon Brown e os mercados. Os mercados aguentam? Não aguentam? A libra desce face ao dólar? E ao decadente euro? Brown, vai-te embora. E foi. O espectáculo deste jornalismo de pacote instantâneo é triste. Fazem-se sondagens para perguntar se as pessoas querem que Brown abandone JÁ! o nº 10 de Downing Street. E as sondagens dizem: JÁ! Pouco habituada a coligações, a Grã-Bretanha acha que ele devia sair porta fora e deixar a casa e o Governo antes de haver Governo. Brown cometeu muitos erros, incluindo o de pedir desculpa ao domicílio a uma mulher fanática. Tinha o microfone ligado e os media entraram numa orgia acusatória, vulgo peixeirada, com essa autocomplacência que dá cabo do jornalismo. Mr. Brown teve de pedir desculpa duas vezes. Imaginem Mr. Churchill a pedir desculpa. É o declínio do Ocidente.

A propósito de Ocidente, não existe um dia em que Portugal não venha nos jornais. Razão? Os mercados. Os jornais ingleses não querem saber quem ganhou as eleições, querem saber o que as eleições fazem aos mercados. E, para o caso de alguém ter ganho as eleições (o que não aconteceu) como é que os mercados respondem se os ingleses forem obrigados a alinhar com a Europa num pacote de estabilização do euro. Dando dinheiro. Isto é o que os ingleses não querem. Toda a gente gosta muito da Europa e ninguém gosta de pagar para manter a Europa. Sobretudo manter civilizações decadentes como a grega, a romana (vulgo Itália), a espanhola e a portuguesa.

No Museu Britânico não existe uma sala dedicada aos portugueses mas quase todas as exposições temporárias (a de Shah'Abbas, o imperador persa que correu com os portugueses de Ormuz, ou a do Reino de Ife, na África Ocidental) falam nuns descobridores que foram os primeiros a chegar a esses lugares remotos. Os portugueses. Os reis do mercado, in illo tempore. Pimenta para aqui, escravos para ali...

Fomos afastados pela geografia, a incompetência académica, a crónica ignorância e a falta de memória colectiva do núcleo canónico da civilização ocidental. O historiador Niall Ferguson escreveu um artigo no "FT" a enunciar esse núcleo fundamental. E ignorou-nos. Fomos reabilitados por um leitor, decerto mais informado, que lhe lembrou o erro e a existência de Vasco da Gama. Regressamos à ribalta arrastados pela matilha dos mercados. Que comerão os nossos bocados do chão.

Texto publicado na edição da Única de 15 de Maio de 2010