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Clara Ferreira Alves

Isto é um "supônhamos"

Os escrúpulos são para os tolos como o vereador honesto. Devia ter pedido 400 mil.

Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)

Isto é um "supônhamos". "Supônhamos" que um jornalista anda com problemas para chegar ao final do mês solvente. Conhece um monte de gente importante e menos importante, poderosa e menos poderosa, e trabalha dentro de um jornal importante, daqueles que contribuem para a queda de governos. O jornalista bate a área político-económica, sem se saber bem qual a sua função, visto que o chefe não o topa e chuta-o de secção em secção. Biscateiro de jornal. Deram-lhe uma rubrica medíocre, para ficar calado. Apesar da crónica falta de dinheiro e das perseguições do chefe, o jornalista leva a sua vida com esplendor mediano e presume também de importante visto dar-se com gente importante.

Um belo dia, num daqueles fartos almoços com fontes, a fonte diz-lhe que tem um amigo do peito, um tipo bestial, incapaz de abrir a boca, que lhe quer dar uma palavrinha. O amigo do peito é uma pessoa importante. Medianamente importante. Suficientemente importante para estar metido numa trapalhada que anda a ser investigada por um dos repórteres do jornal e para dar um artigo que lhe pode vir a custar a reputação e o negócio. O amigo do peito acha que é vítima de perseguição e anda desorientado e quer falar com um insider. Nada de mais, um almocinho discreto num lugar discreto e se ele, jornalista e insider, quiser fazer o favor de ouvir a história toda...

O jornalista não vê razão para não papar um almoço de cinco estrelas. Hoje faço-te um favor amanhã fazes-me outro. Na verdade, não vê razão alguma para dizer a verdade ao empresário perseguido. Sabe da história e o perseguido não é flor que se cheire e o tipo que anda atrás dele é o editor que também o persegue a ele mais um repórter que trabalha sob a orientação do editor e que é conhecido pelo rigor e pena de aço. Logo, um almoço entre dois perseguidos com um inimigo comum.

O almoço corre bem. O perseguido, pá, isto só me acontece porque eu não falei com o gajo com bons modos, e não lhe atendi o telefone e ele deu em marrar comigo por causa deste negócio. E, gente que não vou agora mencionar, e que não gosta de aparecer nos jornais, anda a cair-me em cima por eu não controlar o gajo. Ora, a questão é simples, quem pode controlar o gajo? Ou pelo menos passar-lhe umas informações que desmintam o que ele anda a dizer? O jornalista, bem bebido de um tinto a 50 euros a garrafa, o olho brilhante, oferece os préstimos, modestos embora, sabendo que nunca terá uma oportunidade de influenciar o editor e o repórter. O meu amigo sabe como são estas coisas, diz o outro, ele há maneiras de calar isto. Tem de haver. E eu quero silêncio, eu preciso de silêncio. Se não for possível o silêncio, o que lhe proponho é uma história paralela que distraia as atenções, uma coisa bem montada para fazer o outro passar por mal informado. Se for preciso ameaço com um processo, mas era preciso que esta história aparecesse publicada. E como eu não conheço ninguém dentro desse maldito jornal a não ser o meu amigo, amigo deste amigo, o que lhe digo é o seguinte: o meu amigo printa esta coisa paralela e sai-se bem do negócio. Muito bem. Estou a pensar aí nuns 200 mil euros bem. Que tal? É dinheiro. 200 mil. Cash. Sem cheques sem nada. Na mão. O meu amigo não é rico. É uma ajuda.

O jornalista sente um vago remorso e sente pena de não ter o poder que o outro julga que ele tem. O preço é baixo. Se fosse a subornar o outro a coisa ia ao dobro, de certeza, o pior é que ele não é o outro. E aqueles 200 mil tiravam-no de apertos. Ficaram por ali. Noutro almoço, menos regado porque em questões de dinheiro ninguém gosta de ficar toldado, o jornalista comprometeu-se a publicar a história paralela. Uma coisa enrolada e mal urdida que o chefe nunca publicaria. Os 200 mil passaram de mão, em notas de 500 e 100. O perseguido ficou à espera e nada, a história não saía. Nunca saiu. O jornalista nunca lhe disse que não tinha capacidade técnica ou outra para mudar histórias dos outros jornalistas. Ou escrever histórias falsas sem dar nas vistas. O empresário avançou com ameaças de denúncia, advogados e tribunais. O jornalista encolheu os ombros e guardou o dinheiro bem guardado. Não comprou nada que desse nas vistas. O suborno nunca existira. E, se existisse, o jornalista lembrou-se de um caso muito falado, ao contrário, em que um tipo tinha tentado subornar um vereador. E fora absolvido porque o tribunal achara que não se apurara o conteúdo funcional do cargo do vereador. Logo, a capacidade para influenciar o conteúdo do negócio. Era o caso dele, conteúdo funcional impreciso. Escrevia na política, na economia, etc. Por ali. Nenhuma função específica. Os escrúpulos são para os tolos como o vereador honesto. Devia ter pedido 400 mil. Estamos em Portugal.

Texto publicado na edição da Única de 1 de Maio de 2010